Por uma vez, subscrevo a 100% a visão de Paul Krugman. Que é, aliás, esta. E como não gosto de me citar não vou linkar a quantidade de posts em que sugeri que, na minha opinião, seria isto que, muito provavelmente, teria de vir a passar-se (por exclusão de partes, ou de soluções que não o são, por serem politicamente inviáveis). Deixar o euro. É evidente que as diferenças entre Portugal e a Grécia são, no que a alternativas reais se refere, insuficientes. Hoje é mais claro do que nunca: as probabilidades de incumprimento são elevadíssimas. Em ambos os casos. A contracção económica, que o incumprimento acarreta, obriga, na sequência do arrastamento do sistema financeiro para o caos, a que não possa dispensar-se um instrumento, o único instrumento possível, de reanimação imediata de uma economia comatosa, capaz de gerar procura externa (e não só). E, necessariamente, o FMI. A única alternativa seria um brusco ajustamento interno dos salários, para baixo, de uma tal dimensão que não seria aceite. Para que fosse, seria preciso que a sociedade, as massas, os sindicatos, a generalidade dos parceiros sociais, com cobertura de forças políticas importantes, fossem capazes de agir concertadamente e com racionalidade. Todo o discurso político à esquerda, ao centro, ao centro-direita (e não há nada além dessa fronteira) esteve sempre a anos-luz de sugerir qualquer coisa de vagamente semelhante ao que era razoável fazer. Ou por inexistência de convicção. Ou por convicção de que o razoável não seria aceitável e, portanto, teria de encontrar o seu tempo. Um modo de adiar. E hoje não temos escolhas. Com a credibilidade externa, perdemos liberdade. E perdemos liberdade porque agimos irresponsavelmente. Teremos de acordar subitamente desta espécie de existência narcótica em que vivemos, sem responsabilidade, pagando agora o preço da liberdade. Qualquer liberdade de escolha, digna desse nome. A alternativa à recuperação de alguma autonomia com disposição de moeda própria para poder reanimar é a destruição do que resta de normalidade social e política. Uma queda prolongada não é sustentável politicamente. Arrastar os pés pode conduzir ao pior. Por uma vez seria importante que os políticos - todos - olhassem para o futuro possível e soubessem evitar o mal que advém de só fazer o necessário quando se tornou já quase inútil. Os tempos não são normais. Há muito tempo. Se a Sócrates restasse um mínimo de decência demitia-se, oferecendo ao Presidente a hipótese de nomear um outro primeiro-ministro para a mesma maioria, sem ser necessário recorrer a eleições antecipadas. Alguém ausentado da governação, capaz de assumir um discurso nos antípodas do actual primeiro-ministro. Politicamente, Sócrates é o principal factor do impasse em que nos encontramos. Admito que se ache protegido no Governo, face à quantidade de casos em que se meteu. Mas o Governo não é um bunker. E o país não deve aceitar ser a terra que ele queima.
Quinta-feira, 6 de Maio de 2010
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10 comentários:
Deixar o euro? E o serviço da divida( diferença cambial)? E a inflação? E o desemprego? Gerar procura externa através da moeda mais fraca, sim, mas e a China? Com custos de produção mais baixos e igualmente com moeda fraca. E a matéria-prima importada não ficaria mais cara?
Por iniciativa própria não me parece.Só se a Alemanha sair e o euro acabar.
protecting this wholesome/ideal
The idea of a "Volksgemeinschaft," a community of people e neste kaso de $ também, had a very powerful, very idealistic appeal
além de como diz o anónimo.....
tudo muy válido
Pois e o empobrecimento? Imagine-se um empréstimo de crédito à habitação em novos escudos a ter de ser pago em €, porque o banco o pediu em €? Nessa altura até o Mário Nogueira se torna europeísta furioso. A malta habituou-se às consolas e plasmas baratos.
Com a dependência que temos (vai-se ao supermercado ver produtos agrícolas e vêm de todo o mundo; até as cenouras!) e já se está a ver que a inflação dispararia para níveis Venezuelanos em menos de 30 adias.
Tal como o primeiro comentário aponta, há uma diferença substancial entre a Grécia e Portugal, que é o facto de em Portugal a dívida dos privados ser muito maior do que na Grécia. Por isso, abandonar o euro teria custos muito elevados para os privados portugueses, custos muito maiores do que para os privados gregos. É que o Estado pode facilmente repudiar parte das suas dívidas, mas não será tão fácil para os privados fazê-lo. Para a Grécia será talvez boa solução deixar o euro; para Portugal, talvez não.
Luís Lavoura
Lavoura, tem sentido o que dizes. Talvez seja bom não estares já na Pampilhosa.
"É que o Estado pode facilmente repudiar parte das suas dívidas, mas não será tão fácil para os privados fazê-lo."
Hmm o estado vive ás custas dos privados.
lucklucky
"...É que o Estado pode facilmente repudiar parte das suas dívidas,..."
Luís,desculpe, e como faria o Estado isso?
Lavoura, pensando bem é melhor voltares para a Pampilhosa.
"Deixar o euro?"
Sim, é o melhor que se pode fazer quando se comete um erro: emendá-lo.
"E a inflação?"
Com inflação os salários reais baixam. Isso é justamente do que precisamos, entre outras coisas: que os salários baixem porque subiram desproporcionalmente em relação à produtividade.
"E o desemprego?"
O aumento de exportações cria emprego.
"Gerar procura externa através da moeda mais fraca, sim, mas e a China?"
Portugal exporta, apesar da China. E não há nenhuma razão para pensar que, com a competitividade acrescida via desvalorização, as mesmas exportações não cresceriam.
"E a matéria-prima importada não ficaria mais cara?"
A matéria-prima importada fica mais cara, mas as exportações não se fariam em escudos. Quanto à matéria-prima que não é incorporada nas exportações, o seu consumo diminuiria - exactamente o que se pretende dado o nosso insustentável desequilíbrio nas trocas com o exterior.
"E o serviço da divida (diferença cambial)?"
Um problema bicudo, sem dúvida. E lamento informar que não tenho uma boa resposta. Mas estou certo que se a nossa intelligentzia económica deixar de encarar a nossa pertença ao euro como uma vaca sagrada, alguma solução se há-de divisar.
"Por iniciativa própria não me parece. Só se a Alemanha sair e o euro acabar."
Não é impossível que o euro venha a ser a moeda comum de quem à partida tinha condições para a ele aderir. Não era o caso Grego - nem o nosso
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