Segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

Democracia directa? Não, obrigado.

Um artigo publicado na última edição do jornal Expresso, intitulado 'Deputados sem opinião', apresenta um caso na Suécia (onde mais?) em que um partido, o Demoex, optou por não ter posições concretas acerca das políticas para o país, adoptando algo mais ou menos parecido com a 'democracia directa', votando na Assembleia consoante os votos que tiverem no seu site relativamente às questões a serem levadas ao Parlamento. Parece que o seu propósito é "estimular a participação de cidadãos, através de discussão activa sobre as diferentes matérias legislativas e executivas, evitando que as ideologias interfiram de forma directa sobre as questões programáticas". Na realidade, o seu efeito é mais perverso do que se possa pensar: vive a ilusão de que 'democracia directa' significa 'melhor democracia'.

(1) A representação política é importante, não só porque é uma impossibilidade física ter toda uma população a votar leis, mas sobretudo porque os cidadãos não dominam todas as questões da política. Aliás, o princípio de representação consiste precisamente na delegação dessa decisão para um representante mais capaz de julgar e decidir em função dos interesses que representa. Até porque o povo decide muitas vezes por paixões, e compete aos representantes, mais sábios, proteger o povo das suas paixões.

(2) Os sistemas partidários tradicionais têm que se adaptar e reformar perante novas exigências e novas formas de participação política. Esse é também o caso português. Mas importa distinguir a reforma do sistema partidário (i.e. reconhecer que não satisfaz as actuais necessidades do país) de o acabar com os partidos (i.e. considerar que os partidos não são necessários). A representação pelos partidos é e será fundamental para o funcionamento democrático.

(3) As conversas sobre a democracia directa facilmente levam alguns a referir-se a Rousseau e o seu Du Contrat Social. Já muito (de errado) se escreveu sobre os supostos perigos totalitários nas propostas de Rousseau, nomeadamente a partir das leituras de Isaiah Berlin e Karl Popper, dois autores muito queridos à direita conservadora. A introdução da tecnologia na equação, como no caso sueco abordado no Expresso, irá provavelmente promover esse tipo de leituras, pois permitirá em parte ultrapassar alguns dos limites físicos da democracia directa. Mas mais interessante do que pensar como conseguir uma democracia directa pela tecnologia será considerar as implicações da tecnologia nos alicerces teóricos do liberalismo político, que constitui o corpo da nossa Política, como as nossas concepções de liberdade e igualdade.

Também aqui.

Ausência de limites

Numa entrevista que vale bem a pena ler no Diário de Notícias de ontem, Joe Berardo diz às tantas: "Desde que Marcel Duchamp introduziu o urinol como uma obra de arte, em 1917, que não há limites para a imaginação". Não cito Joe Berardo lorpamente para o gozar: ele não tem nada de lorpa, e até sai simpático, porque inteiramente transparente, da entrevista. O gozo na utilização do poder (Sócrates) é patente, e, à sua maneira, saudável. Aproveito só a coisa, ingénua porque apreendida, do não haver mais limites para a imaginação. É que é bem verdade. Um dos meus maiores degostos nos quinze dias que passei nestas férias em Paris foi o museu do Quai de Branly, para onde Chirac fez mudar as colecções do Musée de l'Homme, que visitei, nos anos noventa do século passado, uma boa dezena de vezes, ou mais. O Musée de l'Homme era um museu maravilhoso de etnologia (não tão bom como o de Berlim, mas maravilhoso). O novo museu, cujo projecto é da autoria de Jean Nouvel, é um horror infantilizante caracterizado. Um centro comercial a meia-luz, em forma de gigantesco corredor galopante, onde todas as peças se tornam invisíveis. De partir o coração. Eu e a minha amiga saimos sete minutos depois. Desgraça por desgraça, é preferível a desgraça do Museu de Etnologia de Belém, que tem todas as peças escondidas por falta de espaço e funcionários. (Se houver algum dinheiro no próximo governo, valia a pena investi-lo aí.) Isto, apesar de tudo, percebe-se: a pobreza é sempre uma razão suficiente. O resto - o Quai de Branly - não. Não há, de facto, "limites para a imaginação".

Ainda sobre as idiotices de Saramago e Caim

O tema de Caim e Abel é da maior actualidade para judeus e católicos, ao contrário do que presume a ignorância feroz do escritor. Ele não sabe, mas foi a esse tema que o Papa mais admirado, respeitado e querido dos judeus, João XXIII, foi buscar inspiração para a sua oração, composta pouco tempo antes de morrer, em que pedia perdão aos judeus pelo passado. A oração dispensa comentários, e transcrevo-a aqui:

«A marca de Caim está estampada nos nossos rostos. Ao longo dos séculos, o nosso irmão Abel jazeu no sangue que lhe arrancámos, e chorou as lágrimas que lhe causámos por termos esquecido o Teu amor. Perdoa-nos, Senhor, pela maldição que falsamente atribuímos ao seu nome de judeus. Perdoa-nos por Te crucificarmos uma segunda vez na carne deles. Porque não sabíamos o que fazíamos.»

Magritte em versão canina

Domingo, 30 de Agosto de 2009

O nível moral de Saramago e o seu entendimento do que é escrever

25 de Março de 2002. Saramago encontra-se em Ramallah com Yasser Arafat, como membro de uma delegação do International Parliament of Writers (IPW). Diz à imprensa: «Devemos fazer soar o alarme para dizer ao mundo que o que se está a passar na Palestina é um crime, e está nas nossas mãos pará-lo. Podemos compará-lo a Auschwitz.»

Quando o jornal israelita Ha'aretz lhe pediu que elaborasse sobre a comparação que acabava de fazer, a respeito das câmaras de gás disse Saramago: «Até agora não existem.» E explicou-se: como escritor era sua função fazer comparações emocionais para chocar as pessoas e fazê-las compreender.

A. B. Yehoshua, um escritor israelita (não traduzido entre entre nós, no que devemos ser únicos na Europa, uma vez que ele é tão aclamado com Amos Oz), com posições políticas situadas bem à esquerda, comentou: as declarações de Saramago são «um ultraje sem precedentes. Não se pode levar o que disse à conta da cegueira, porque a cegueira dele é intencional.»

Uma singela homenagem à pulsão obreira do senhor primeiro-ministro

Vá, todos juntos, juntos conseguimos:

Wir fahr’n fahr’n fahr’n auf der Autobahn
Wir fahr’n fahr’n fahr’n auf der Autobahn...



[Von hier aus.]

Sofre de "Doença Igualitária"? Obviamente que Sim!

Hidden Persuader, nos bichos carpinteiros, a propósito de Carolina Patrocínio e das cretinas declarações desta sobre a forma como, supostamente, se relaciona com a sua "empregada", jura, ao contrário de outros, que não sofre de "doença igualitária" e que, por isso, se está "borrifando" para a eventualidade da "criada" da mandatária da juventude de Sócrates lhe lavar ou não os "pés" ou lhe colocar ou não "a frutinha na boca". A propósito de tamanha indiferença, resguardada no uso de um tom que roça o sarcasmo, gostaria de notar duas coisas. Em primeiro lugar, que caso a criada fosse o autor, um familiar ou um amigo do post o sentimento de indiferença era bem capaz de não existir. Em segundo lugar, que Hidden Persuader vive bem com o facto de por aí haver muita gente que para poder ganhar um salário se veja obrigada a lavar os pés ou a colocar a fruta na boca a quem tem, que se saiba, cabeça, tronco e membros em perfeito estado de funcionamento.
Visto isto, se me perguntarem se sofro de doença igualitária, não apenas digo que sim como sou capaz de dizer que sofro da "doença infantil do comunismo".

Da servidão humana


Publicado no i

Há bandas que procuram a canção pop perfeita. Os romancistas norte-americanos procuram o grande romance americano. O Santo Graal das letras americanas teria de ser um grande fresco de toda a história americana; mítico mas que projectasse o homem comum; exemplar dos valores americanos, inspirador e escrito na língua telúrica das pedras e da paisagem, a língua de Whitman, de Twain e de Faulkner. Um romance onde coubesse toda a América, um romance que fosse a América.

Por esse motivo, pode parecer estranho que um livro escrito por uma mulher negra, sobre a vida de uma escrava e da sua luta para se reconstruir em liberdade, que decorre em meados do século XIX, seja talvez o mais próximo que os escritores americanos estiveram daquele grande romance. É o relato de uma experiência minoritária, sobre uma das páginas negras da história americana e, no entanto, Beloved ultrapassa claramente esses limites. Em vez da construção épica de um país, temos a história de Sethe, mulher, negra e escrava em fuga de uma plantação, Sweet Home, rumo à liberdade. Privado de desejos e vontade própria, o escravo não tinha autorização para se apegar aos seus porque nada lhe pertencia. O seu corpo, animalizado, brutalizado e violado, não lhe pertencia. Para não sofrer mais, o escravo nem sequer se podia afeiçoar aos filhos, porque “não valia a pena memorizar feições que nunca veria transformarem-se em adultas”, “assim protegíamo-nos e amávamos pouco”. Para o escravo, a liberdade era mais do que a carta de alforria, o soldo pago pelo suor do rosto, era “chegar a um lugar onde se podia amar tudo aquilo que se escolhesse - sem precisar da autorização para o desejo”. Quando Sethe se vê novamente sob a ameaça de perder o que conquistou com a fuga, recusa-se a aceitar que os filhos voltem para o lugar escuro de onde escaparam e degola a própria filha. E o que é mais chocante no sacrifício é a necessidade que subjaz ao acto aparentemente tresloucado. Tal como Abraão ouve a voz de Deus e não hesita em sacrificar o seu único filho, Sethe está disposta a matar os filhos para os poupar à não-vida da escravidão. O que parece loucura é, afinal, amor. Depois de conhecer a liberdade, Sethe não quer que os filhos sintam na pele a mesma árvore de carne viva que ela carrega às costas. A memória do sofrimento não se cinge às cicatrizes físicas. Beloved é também uma história de fantasmas que não se podem esquecer (o fantasma da criança morta assombra a casa de Sethe e encarna nessa criatura vinda de lado nenhum que se chama Beloved), de passados que não se podem exorcizar.

O Nobel que Toni Morrison recebeu deve-se sobretudo a este seu quinto romance, publicado em 1987. E o lugar de Beloved na galeria dos grandes romances americanos releva da sua ressonância bíblica, que lhe confere o carácter mítico, e do poder evocativo da tradição oral, que lhe garante a força telúrica e o enraizamento popular. É a história da libertação de um povo e do sangue derramado nesse caminho. É sobretudo a história de uma mulher e do seu êxodo particular rumo à Terra Prometida que cada ser humano livre traz no seu coração.

Sábado, 29 de Agosto de 2009

Animais

“Tout au début de la Genèse , il est écrit que Dieu a créé l’homme pour qu’il règne sur les oiseaux, les poissons et le bétail. Bien entendu, la Genèse a été composée par un homme et pas par un cheval”. Talvez Saramago não concorde com esta última frase de Milan Kundera. É esperar para ler o novo romance do nosso Nobel. A frase é retirada de um dos últimos capítulos de “A Insustentável Leveza do Ser” (perdoem-me a paneleirice do francês mas só tenho a edição baratinha da Folio, à qual restará pouco tempo, tal a decrepitude das folhas). Kundera defende que a bondade do homem só se pode manifestar em toda a pureza e liberdade quando é dirigida aos que não o podem ameaçar, aos que lhe são “hierarquicamente” inferiores. Refere-se aos animais. De acordo com esta ideia, a verdadeira crueldade também só se poderia manifestar quando exercida contra animais, contra aqueles que, por decreto divino e humana soberba, estão à nossa mercê. O homem é deus e senhor dos animais. Vive a sua superioridade quando dispõe do destino de uma mosca, de um cão, de uma galinha. Em “Aparição”, Carolino, esse Raskolnikov alentejano, sente uma vertigem de super-homem nietzscheano quando mata uma galinha à pedrada. “O homem é que é Deus porque pode matar”, conclui com lógica imbatível. No livro “O marinheiro que perdeu as graças do mar”, Yukio Mishima descreve a morte de um gato às mãos de um grupo de adolescentes. “Fui eu que o matei. Posso fazer tudo, por mais terrível que seja”. Nestes dois exemplos, a morte do animal é um exercício cruel de superioridade, o treino para o homicídio, o líquido viscoso que serve para encher “as cavernas do tédio”. Kundera reforça esta comparação. Na Checoslováquia, antes de passarem ao alvo humano, os russos organizavam campanhas de extermínio de cães, porque sujavam os passeios, porque eram um risco para a saúde infantil. “Il fallait d’abord l’entraîner contre une cible provisoire. Cette cible, ce furent les animaux”. Quando somos crianças, a crueldade contra os animais é um meio comum de testarmos os limites da nossa humanidade, e quem nunca arrancou as asas a uma mosca que atire a primeira pedra a um pombo. Embora moralmente distintos, são gestos tão humanos quanto os de uma criança que afaga um cão moribundo. As lágrimas que Tereza derrama por Karenina (“Bon Dieu, vous n’allez tout de même pas pleurer pour un chien!”) e o olhar triunfante de Carolino após matar a galinha são os extremos – de bondade e crueldade puras - da nossa humanidade condenada.

Parabéns à Maria João

A Maria João Marques teve hoje um rapaz de 3 quilos e meio, que vem ao mundo precedido de justa fama. Parabéns dos camaradas aqui do Cachimbo e votos de muito sossego.

Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

Coscuvilhice de Estado

Em Portugal, temos por hábito perder demasiado tempo a pensar e discutir coisas sem importância nenhuma, ficando naturalmente com pouco para as que realmente importam. O mais recente 'caso' das escutas entre a Presidência e o Governo é uma das coisas importantes que se afogou no fluxo dos vários faits-divers deste Verão pré-eleitoral. Não é um mexerico de Verão, é uma questão com tremendas repercussões políticas e institucionais. O que está em causa, para além do óbvio, é o respeito pelas instituições soberanas da nossa democracia, que não podem cair sob suspeita impunemente. Ou é verdade, ou não é (e esperemos que não seja), mas a resposta não se pode resumir a uma crença ou fé na inocência de quem está envolvido. Entretanto, passados dez dias, ninguém na Presidência se pronunciou.

Hoje, numa entrevista ao jornal i, Deus Pinheiro afirma que Cavaco Silva terá certamente comentado o 'caso' em privado, e que se não o fez publicamente é porque tal não deverá ser do interesse do país. O problema desta visão de Deus Pinheiro é a sua concepção muito limitada e paternalista do que é o 'interesse do país', como se fosse preferível para o país não saber que as suas instituições políticas podem estar comprometidas.

A qualidade de uma democracia mede-se, sobretudo, pelo respeito que esta tem pelas suas instituições. E em plena luta eleitoral, talvez fosse conveniente lembrar aos nossos políticos que, muito mais do que eles serem eleitos, o 'interesse do país' está precisamente em manter as instituições democráticas imunes aos seus caprichos.

E Para Beber?


Cerveja Super Bock e água Vitalis. Sempre! A partir de hoje e, pelo menos, até 2012.

Mas o que é que querem esconder?


A confirmar-se esta notícia, publicada hoje pelo jornal i, a situação é de uma enorme gravidade. Pretender esconder, por razões de oportunidade política, os resultados da avaliação da reforma penal já terminada pelo Observatório Permanente da Justiça, para depois das eleições, confirma a ideia de este Governo se preocupa mais com a sua imagem do que em resolver os problemas do país. E que os socialistas têm medo de serem confrontados e responsabilizados com os resultados de quatro anos das suas políticas, preferindo esconder ou adiar para depois das eleições. Ainda por cima num tema importante, como a reforma penal, cujos resultados não poderiam ser positivos como aqui e aqui tentei demonstrar.

Da série "sem comentários"

É Saramago

José Saramago prepara-se para cometer um novo livro de «regresso aos escritos com a religião como protagonista», segundo o i. Vá-se lá bem saber o que isto possa querer dizer. Mas adivinha-se o nível intelectual da coisa, a medir por esta explicação que, sobre o fenómeno, o nosso crânio nobelizado dá à espanhola agência EFE: «Deus não é de confiança. Que Deus é este que para enaltecer Abel despreza tanto Caim?». Chama a isto ironia, mordacidade.

Vai daí, a jornalista da EFE pergunta ao crânio se ele não teme «nova crucificação», análoga à que diz que teve quando publicou o seu «evangelho». Resposta: «Alguns talvez o façam, mas o espectáculo será menos interessante. Os católicos não lêem o Antigo Testamento. Se os judeus tiverem uma reacção, aí já não me supreendia. Mas não compreendo como é que o povo judeu fez deste o seu livro sagrado. É um conjunto de absurdos», etc., etc.

Este crânio ignora, pelos vistos, que o povo judeu não existe, historicamente falando, antes do Livro a que se refere; que o Livro é a sua «constituição»; que a frase dele faz tanto sentido como esta: «Não compreendo porque é que os cristãos fizeram dos Evangelhos livros sagrados». Ou esta: «Não compreendo porque é que os muçulmanos fizeram do Alcorão um livro sagrado». Talvez porque o seu conhecimento das coisas mais elementares sobre o Livro e os judeus lhe escape totalmente. O que não o impede de anunciar que vai escrever sobre elas. E isso é mau? É pior: é Saramago.

Distinção



"Este Compromisso de Verdade, que aqui assumo pessoalmente em nome do PSD, distingue-se claramente dos habituais programas partidários.
Distingue-se, em primeiro lugar, porque de forma clara fazemos uma selecção de prioridades. O programa eleitoral do PSD não se apresenta como uma receita que pretende resolver todos os problemas do país ao mesmo tempo e que, indiscriminadamente, tudo promete a todos. Há que ter a coragem de definir as áreas de intervenção urgente e prioritária e de assumir que essas mobilizarão, à frente das restantes, os esforços de um Governo PSD. Assim, tomamos o compromisso de dar prioridade à economia, às questões sociais de solidariedade e saúde, à justiça, à educação e à segurança. Serão estes os cinco campos de intervenção urgente e preferencial de um Governo do PSD. Sabemos, por experiência, que os recursos são escassos e que não é possível fazer – fazer bem – tudo ao mesmo tempo. Sabemos, por conhecimento e em consciência, que a política é a arte da escolha e um exercício permanente de opção e selecção. Os projectos políticos também têm de ser julgados pela capacidade que têm de fazer opções e pelas opções que, substancialmente, fazem. Cabe agora aos portugueses julgar o mérito das opções feitas.

Distingue-se também este Programa, porque é sucinto e objectivo, não se refugiando em generalidades, prometendo tudo a todos. O ponto de honra – a verdadeira nota distintiva – é que todos os critérios definidos, todas as soluções propostas, todas as medidas avançadas são susceptíveis de ser executadas. Tudo o que é explicitado será rigorosamente cumprido. Por isso se trata, não de um programa feito por um conjunto de sábios, que já escreveram dezenas de programas de governo e que se limitaram ao “copy-paste” das versões anteriores, mas de um “Compromisso de Verdade”. Quem estiver à procura neste texto de “soluções mágicas”, “medidas-bandeira” ou “slogans de belo efeito”, vai procurar em vão. Um compromisso de verdade vive da consistência e da coerência interna, não do “panfletarismo fácil”. Com este compromisso, os portugueses sabem com o que podem contar. É um projecto cujo cumprimento e execução podem ser verificados página a página, parágrafo a parágrafo, linha a linha. Este programa deve ser julgado e apreciado também por isso: por esta fácil possibilidade de aferição e controlo externo.

(...) Não se trata, por isso, de um programa editado por um grupo de sábios, a pensar no marketing político, segundo o princípio da satisfação máxima da clientela eleitoral. Trata-se, pelo contrário, de um documento que, não só no seu conteúdo, mas também na sua elaboração, obedeceu a um escrupuloso respeito pelos cidadãos que seriam seus destinatários e pelo imperativo da verdade. Estamos convictos que, só por si, este Compromisso de Verdade contribui para restaurar os laços de lealdade e confiança com o eleitorado, com os cidadãos portugueses."


Manuela Ferreira Leite, no discurso de apresentação do programa eleitoral do PSD.

[Também aqui.]

Mais poder e menor funcionalização dos juízes

«Prepararemos um programa de reforma do processo civil com base nos princípios da simplificação processual, máxima concentração dos actos processuais, oralidade das decisões judiciais, confiança na actuação do juiz na condução do processo, produção antecipada da prova e diminuição das formas de processo.» (Programa do PSD)

O Pedro Pestana Bastos diz, e bem, que o tema da remuneração dos juízes tem sido a escolha central dos media dentro do programa para a justiça do PSD. Concordo com a medida e recomendo sobre ela leitura do Nuno Garoupa, mas discordo da atenção que lhe é dada, sobretudo porque até no tema dos juízes há dois pontos para mim mais interessantes: um deles é o excerto acima citado onde claramente há uma vontade de dar mais poder aos juízes. O outro é o citado aqui em baixo pelo PPB e onde concordo em absoluto com o programa e discordo do Pedro, que é a inclusão dos juízes de mérito de forma crescente no sistema. Penso que já aqui defendi que a curto prazo o nosso sistema deveria estabelecer as bases para, articulado com outras medidas, adoptar o sistema holandês em que 50% dos juízes passam a ser juristas de mérito com mais de 40 anos, o que é distinto da tal politização que o Pedro falava, com o objectivo de, a longo prazo, termos um sistema a 100% de mérito, muito anglosaxónico dirão alguns, mas muito bom digo eu.

O programa do PSD para a Justiça


O centro das atenções no que se refere ao programa PSD para a justiça tem sido a proposta de existência de uma componente variável na remuneração dos Juízes.
Concordo com este princípio, devendo os próprios Juízes (através do Conselho Superior de Magistratura) ter um papel essencial na determinação dos critérios de fixação da parte variável, que serão assim prémios de produtividade evitando-se regras que funcionalizem os Juízes.
Mas a meu ver há uma proposta concreta que não tem sido falada e que consubstancia uma alteração na natureza e constituição dos Tribunais.
O PSD propõe a introdução nos Tribunais superiores de Juízes provenientes de outras profissões jurídicas.
Em rigor tal já acontece no Tribunal Constitucional em que a Assembleia da Républica elege Juízes por indicação dos partidos. Mas se em relação ao Tribunal Constitucional tal principio pode ser compreendido em função da sua natureza política, (o que não significa que se concorde), já no que se refere ao Supremo Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Administrativo tal iniciativa constitui um ataque à independência do poder judicial perigosa para a separação de poderes. Se há realidade que ainda funciona bem na justiça em Portugal são os Supremos Tribunais, não os queiram poluir com "juízes" políticos.


Liberdade, diz ela

Não vou falar do programa do PSD, com o qual concordo, e que, penso e desejo, concordarão a maioria necessária dos portugueses para que ele venha a ser a base do programa do próximo Governo de Portugal.

Quero falar de uma coisa, na aparência, mas só na aparência, mais modesta. Das palavras de Manuela Ferreira Leite, ontem. E de uma palavra em particular: liberdade.

Há quanto tempo a palavra liberdade não entrava no discurso político como seu eixo fundamental?

Na recapitulação final do seu discurso, Manuela Ferreira Leite disse: «Um Estado que (...) que não se revê no dirigismo asfixiante de tudo o que é livre, de tudo o que mexe e agita. (...) Um Estado que seguirá, na melhor tradição das democracias ocidentais, a tradição da liberdade, da igualdade de oportunidades e da solidariedade».

Pode parecer estranho, muito estranho, mas para os que vaticinavam uma asfixia do espaço político e ideológico do PSD por intrusão de um Sócrates supostamente centrista o suficente para lhe retirar justificação, o mínimo que se pode dizer é que o obituário, ainda em moda há pouco tempo nas opiniões publicadas, foi um exagero.

A diferença, toda a diferença, está aí: na liberdade, como ela a diz.

Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

As lições do Simplex

Não sei se serão os efeitos de 4 anos de governo, mas estes simplex(es) estão tão habituados a dar lições de cátedra aos seus adversários que já não cuidam de proteger o flanco, como se poderia dizer. Dão lições de tudo, mesmo quando dizem asneiras. O tom é inconfundível. Agora, um Simplex quis dar lições a Paulo Rangel sobre Maquiavel, e a ver na invocação do florentino uma declaração "grave".
Não estou aqui a proteger Paulo Rangel, não só porque ele não precisa que o protejam, como nem acho que a sua leitura de Maquiavel seja particularmente rigorosa. Mas gosto de ver o simplex Leonel Moura substituir a ignorância de Rangel pela sua tremenda erudição ao dizer que Maquiavel falou sobre a tirania, ao passo que hoje vivemos numa democracia. A chatice destes pensadores que andam nas bocas dos sábios dos nossos tempos é que dão trabalho a ler. Talvez o Leonel Moura não tivesse escrito este post se reparasse que na obra "O Príncipe", por exemplo, a palavra "tirania" não aparece uma única vez. Talvez lhe desse que pensar.

O Burocrata Perfeito

No "mais do mesmo com alguns remendos" que é o programa do PS para a Justiça, nada é mais exemplificativo de uma visão socialista sobre a sociedade do que a funcionalização total da posição de juíz e a crença na possibilidade de construir uma máquina de formação de juízes, numa espécie de linha de montagem de homens da regisconta com toga. O aparelho de montagem é o actual Centro de Estudo Judiciários, e o sistema de melhoria do PS passa por mais CEJ, não lhe ocorrendo que o CEJ talvez seja o problema e menos CEJ a curto prazo e nenhum CEJ a longo prazo seria uma melhor política sempre que devidamente articulada com outras reformas na área que o PS deve entrar em pânico só de ouvir falar.

No meio de mais e mais formação sobre cada vez menos, numa indesejável maior especialização nos termos propostos, o PS lá abre um pouco a torre de marfim e conseguimos espreitar o resto da família: trazer a universidade portuguesa para o CEJ, numa espécie de incesto intelectual, para além de outras entidades que não especifica. Mas como para o PS o partido é o estado e o estado é o país, aqui vai o meu contributo de cidadão humilde para o programa do PS: A instituição que é necessária trazer para junto dos juízes é nem mais nem menos que a sociedade civil. Os juízes devem ser mergulhados e "contaminados" com os seus concidadãos, sobre cujas acções serão mais tarde árbitros. Nenhuma máquina de produção se substitui ao exercício de profissões na sociedade e nenhum diploma legal dignifica e impõe mais respeito que mérito especial no exercício de funções na sociedade. Exercer função de juiz é uma alta função no estado e não uma carreira, desfuncionalizar a judicatura a curto prazo como por exemplo têm os holandeses seria um óptimo primeiro passo para uma visão de objectivo de desfuncionalização total como é prática corrente em sistema de justiça eficientes.

Os juízes devem partilhar do sentimento de justiça da sociedade, e não há máquina que produza isto, o que o PS propõe é uma espécie de fiscal das finanças cruzado com arquitecto da câmara municipal. Acho que todos sabemos o que isto quer dizer.

Programa Eleitoral do PSD


A expectativa é grande para o que dirá logo à tarde Manuela Ferreira Leite. Os principais jornais tentam hoje antecipar, baseados na boataria habitual nestas situações, algumas novidades do documento. Esta ansiedade, a exactamente um mês das eleições, mostra duas coisas.
A primeira é que muita gente acredita que o PSD pode mesmo ganhar as eleições de 27 de Setembro. E que o programa eleitoral se pode mesmo vir a transformar, versão revista e aumentada, num programa de governo. Se assim não fosse acham que se ligava tanto a umas dezenas de folhas de letras e números?
A segunda é que falar verdade eleva as expectativas. A credibilidade de Ferreira Leite chama as pessoas a ouvir o que ela tem para dizer. Por contraste, já quase não nos lembramos do que disse Sócrates na apresentação do programa socialista. Tantas foram as promessas e a propaganda dos últimos quatro anos, que já são poucos os que ouvem ou levam a sério o que diz o actual Primeiro-Ministro.

A tacada


Ontem li este post do Rui Castro e não quis acreditar.

Eu sei que é verão e possivelmente o Drº Deus Pinheiro apanhou muito sol nos campos de golfe. Mas depois de ver a entrevista clara de Manuela Ferreira Leite na RTP, julgava impossível ouvir o cabeça de lista do PSD pelo distrito de Braga defender, a um mês das eleições e no exacto dia de apresentação do programa de Governo, que "seria muito benéfico para o país uma coligação PS - PSD".

Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

Um grande discurso

Gostei muito do discurso de Marques Mendes, ontem na Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide. Julgo que foi um momento raro na política nacional. Tratou-se de um discurso político, em vez das habituais politiquices, no qual Marques Mendes abordou essencialmente o papel dos partidos na melhoria da qualidade da democracia, identificando problemas e apresentando as suas propostas. Pode parecer pouco, mas não o é.

Falou da importância da ética na política, na transparência e na credibilidade dos processos democráticos, e por isso criticou implicitamente a inclusão de Preto nas listas eleitorais do PSD. Sugeriu ainda que uma lei limitasse as candidaturas àqueles que são alvo de processos judiciais, embora salientasse que, na sua opinião, tal tomada de posição dentro de um partido devesse ser espontânea.

Falou também da necessidade em fortalecer a accountability dos deputados na Assembleia da República, para que prestem contas aos eleitores e não somente aos seus partidos. Assim, propôs a criação de círculos uninominais para as eleições para a Assembleia da República (AR), de modo a que os eleitores se identifiquem com os seus representantes, e se responsabilizem, perante eles, pelo seu desempenho.

E, finalmente, tocou na ferida: aos partidos não interessa promover estas mudanças. Os interesses da democracia não coincidem com os dos partidos, que essencialmente querem poder para governar (ou para se governarem). Mas as mudanças só acontecerão se nos partidos existir coragem política, um certo tipo de virtude política de patriotismo. Foi a essa virtude política que Marques Mendes apelou. Não basta votar em partidos, e deixá-los a saborear os seus privilégios e a moldar leis à sua vontade (veja-se o caso da lei do financiamento partidário, que Cavaco Silva vetou); é preciso fortalecer os mecanismos institucionais que defendem a nossa representação política.

Perante um público jovem e maioritariamente rodado nas juventudes partidárias, Marques Mendes fez um discurso contra a lógica do aparelho, que induz nas juventudes os vícios dos graúdos dos partidos. Concorde-se ou não com as suas propostas, é inevitável concordar com o seu diagnóstico. O discurso de Marques Mendes teve, por isso, o mérito de nos obrigar a interrogarmo-nos sobre as suas soluções, a questioná-las e a procurar outras melhores. Só assim o debate prosseguirá, e só assim finalmente os partidos se sentirão obrigados a promover mudanças contra a sua vontade. A democracia agradece.

Um simbolo americano

Morreu hoje com 77 anos.

Bom dia

Sento-me à secretária para começar a trabalhar. Tenho no mail um «Apelo ao boicote de marcas suecas» em Israel. Penso: que Diabo! A Suécia é de há muito, e num crescendo que arrepia, um lugar de anti-semitismo dos mais desabridos do planeta. Mas terá um boicote às marcas suecas alguma eficácia face à situação? Páro de ruminar e abro o apelo.

Fico a saber detalhes da história. Um jornalista sueco, Donald Boström, publicou há dias no tablóide Aftonbladet um artigo segundo o qual soldados das Forças de Defesa Israelitas andam a extrair órgãos de palestinianos.

O autor do artigo concede que não tem provas de qualquer das suas alegações, mas afirma que compete aos «judeus» e a Israel provarem que estão inocentes.

Primeiro calafrio. O libelo de sangue, medieval e velho, continua.

A primeira reação da embaixadora sueca em Israel, Elisabet Borsiin Bonnier, face à indignação com que a notícia do artigo foi acolhida no país, foi a de que ela «era tão chocante e horrorizante para nós suecos, quanto para os cidadãos israelitas. Partilhamos o desalento expresso pelos responsáveis governamentais israelitas, pela comunicação social e o público. A embaixada só pode distanciar-se inequivocamente disto... A liberdade de imprensa e a liberdade de expressão são liberdades que implicam uma certa responsabilidade.»

Não foi essa a opinião do ministro dos Negócios Estrangeiros, Carl Bildt, que deu ordens à sua embaixadora para se abster de quaisquer comentários sobre as virulentas acusações do Aftonbladet. Em contrapartida, ele comentou abundantemente, não as declarações do Aftonbladet, mas a reacção da sua embaixadora: «A embaixada em Tel Aviv reagiu em consonância com a opinião pública israelita, mas o governo sueco está comprometido com a liberdade de imprensa e expressão... O Ministério dos Negócios Estrangeirs teria agido de outra forma.» A liberdade de imprensa na suécia obriga o governo e os órgãos do Estado a absterem-se de criticar sinistras acusações do mais soez anti-semitismo que se pode imaginar?

Pelos vistos, sim. Per Gahrton, porta-voz do Partido Verde, na oposição, afirmou mesmo que Borsiin Bonnier precisava de ser relembrada dos princípios básicos da liberdade de expressão sueca.

O dia continua. Leio no Público o artigo de Irene Flunser Pimentel, «Lições do Holocausto?», contando-nos as reflexões que trouxe da sua recente visita à Polónia. Cita, em dado passo, Ian Kershaw: «O caminho para o Holocausto foi construído pelos criminosos nazis, mas foi pavimentado pela indiferença».

O dia começa mal. Vou fumar o um cigarro para ver se passa.

E desejo-vos um resto de bom dia.

Os debates e as televisões (ii) (alterado)

Ao que parece o PS aguarda as próximas sondagens para tomar posição sobre o formato de debates proposto em conjunto pelos operadores de televisão. Entretanto faltam apenas trinta dias para o fim da campanha e ainda não há luz verde.
Alguns jornalistas como Ricardo Costa apelam ao "bom senso" de PS e PSD, mas, afinal, parece que é apenas o PS que não viabiliza os debates. (post alterado após esclarecimento do nosso leitor Lusitano e de um membro da comissão política do PSD que me assegurou que MFL já reiterou publicamente a disponibilidade de efectuar debates a dois nos moldes propostos pelos operadores de televisão).

Razão e Compaixão

Maria João,
O festival que se organizou na Líbia para receber tão ilustre terrorista é "abjecto", como "abjecta" é boa parte da "rua árabe" e o regime líbio que movem e comovem muita gente por este ocidente fora, tanto de esquerda como de direita, idealistas ou realistas. Mais "abjecto" foi o atentado e ainda o facto do ilustre terrorista nunca ter mostrado arrependimento. Por outro lado, sou solidário com os familiares das vítimas que se sentem revoltados com a libertação do homem e percebo a sua indignação.
Mas a verdade é que a compaixão e a inteligência, já para não falar no bom-senso, mostrados pela lei escocesa e pelo governo escocês devem prevalecer e ser sublinhados num momento como este: o terrorista sofre de uma doença terminal que não lhe garantirá mais do que três meses de vida e por isso pode e deve ser libertado para poder passar na sua terra, com familiares e amigos, os cerca de 100 dias de vida que lhe restarão. Manter o homem preso nestas condições seria, no meu modesto modo de ver, uma atitude ética e moralmente reprovável e que, ao menos neste caso particular, faria equivaler um governo e uma sociedade ocidentais aos terroristas que fizeram explodir um Boeing 747 sobre a Escócia. E isso penso que, do lado de cá, que é o nosso, Maria João, ninguém quer.
Uma nota final apenas para a hipocrisia de muita gente que ignorou o teor dos comentários de Obama sobre a libertação em causa. Tivesse sido o "outro", o inominável, e muita coisa facilmente imaginável teria sido dita e repetida por aí.

Terça-feira, 25 de Agosto de 2009

A patetice de Mário Soares

Mário Soares é hoje uma personagem patusca. Depois do terceiro lugar nas presidenciais de 2006, tem-se arrastado pelas páginas de jornais com artigos ridículos, ora elogiando Hugo Chavez, fazendo panegíricos colegiais a Obama, ou a colocar-se em bicos de pés na Europa, conforme vimos nas recentes eleições europeias. Hoje entrou na campanha eleitoral portuguesa, com um artigo que apenas o envergonha a si próprio, chegando a tecer considerações sobre o "look" de Manuela Ferreira Leite, talvez a procurar espaço no programa de Fátima Lopes ou de Luís Goucha. Mário Soares limita-se a repetir a propaganda socrática, servindo como correia de transmissão do seu líder partidário.

Dois amigos prováveis

Chavez e Chomsky.

Vamos todos ser muito compreensivos e bonzinhos com os terroristas

No meio da controvérsia sobre o acolhimento de herói dado na Líbia ao terrorista responsável por Lockerbie, e das desculpas que se vão ensaiando para os lados da Escócia (haviam combinado que o acolhimento seria discreto - como se se pudesse confiar nas palavras dos enviados do governo de Kadhaffi - ou haveria represálias aos estrangeiros residentes na Líbia), é conveniente reconhecer que foi um governo europeu - o escocês - que forneceu à Líbia os meios para escarnecer das vítimas e seus familiares que pereceram no atentado. E este é só mais um exemplo de como os governos europeus apreciam vergar-se aos desejos de extremistas muçulmanos (recordemos, num exemplo entre muitos, a actuação mais que vergonhosa dos holandeses no caso da Ayaan Hirsi Ali), para agradar às almas politicamente correctas da esquerda europeia, sem que, curiosamente, consigam criar alguma boa vontade nos extremistas - pelo contrário, apenas dão origem à ideia, certa, de que se se abusarem mais um pouco os europeus continuam a vergar-se.
De uma vez por todas é conveniente explicar na Europa que é muito bonito dar a outra face desde que a face que se dá seja nossa, não a de outras vítimas pelas quais não podemos decidir quanto ao destino da face.

Segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

Dr. Jekyll e o moço de recados

Longe da bloga por uns dias, só hoje li esta prosa rasteirinha. Não sei se o António Nogueira Leite que a assina é o mesmo que escreve aqui. Custa-me a crer. Mas sei que o Afonso Azevedo Neves que a publica é o mesmo do costume: um moço de recados.

Ouro fracturante


Procurei aqui e também aqui, para tentar perceber a doutrina dos controleiros da homofobia da nação, no caso Semenya.
Nem uma palavrinha, nem um postalinho.
Como eu os entendo...

Os debates e as televisões.

Não percebo tanta polémica com os debates.
Se as televisões estão de acordo em transmitir um debate a cinco e a sortear os debates a dois, estão reunidas as condições para os debates.
Não havendo consenso entre os candidatos mas havendo em relação aos operadores de televisão, então às televisões cabe fazer os convites e aos líderes cabe aceitar ou recusar.
Não acredito que os operadores aceitem mudar o formato a que chegaram por consenso apenas porque um dos cinco líderes partidários recusa parcialmente o formato.
Se qualquer um dos candidatos entender que deve recusar os debates com algum dos protagonistas então que fique a cadeira vazia e seja o debate substituído por uma entrevista.

A terceira força


O CDS quer voltar a ser o terceiro partido de Portugal. Este objectivo fixado na entrevista de Paulo Portas ao Expresso revela coragem.

Embora ambicioso o objectivo parece possível. Na pré-campanha o CDS arrancou melhor e o seu discurso apresenta-se claro aos portugueses. Seja nas questões de segurança em que o discurso é perceptível e descomplexado, seja nas questões económicas em que a postura é a mais arejada na defesa nas PMEs e no estabelecimento de condições que favoreçam a mobilidade social, seja ainda na defesa da agricultura como meio de salvaguarda da coesão territorial.

Mas se em termos eleitorais a passagem a terceira força parece ao alcance do CDS, em termos políticos tal resultado não é indiferente. Num momento em que já ninguém acredita que PS ou PSD tenham uma maioria absoluta e em que mesmo MFL admite que terão de existir condições para governar em minoria, é muito importante o papel da terceira força no Parlamento. Dos três candidatos a terceira força só o CDS pode oferecer estabilidade e serviço, trabalho e credibilidade, alternativa e responsabilidade.

Bússola Eleitoral

Ainda antes do início da campanha eleitoral proponho um teste desenvolvido pelo ICS em parceria com a SIC Notícias. Simples e claro ajuda os eleitores a entender onde se situam no espectro político. São cerca de 25 perguntas e podem ser respondidas no site Bússola Eleitoral

Cuidado

Como é infelizmente de costume o caso quando se estuda história, quanto mais se sabe, mais feia ela se torna.

Rabino Joseph Telushkin, in Jewish Literacy.


Alentejo (17)

Marvão. VI (fim). Entardecer.

O "plano de saúde" de Barack Obama.

Com razão ou sem ela, Obama pretende outorgar aos norte-americanos um sistema de saúde universal e "tendencialmente gratuito" assente numa subida exponencial da despesa pública (essencialmente federal). Muitos dos seus concidadãos opõem-se ao "plano" por considerarem tratar-se, entre outras coisas, de uma intromissão, mais uma, inadmissível do Governo federal nas suas vidas e nos seus rendimentos.
Independentemente de, no passado, esforços de uma reforma, ou revolução, no sistema de saúde norte-americano terem provocado várias vítimas políticas (a última foi a senhora Clinton), hoje é possível ter a certeza de três coisas sobre as intenções de Obama. A primeira é que não sabemos, e ele também não sabe, se haverá um novo "plano de saúde" para todos os norte-americanos e, se vier a haver, de que tipo de plano se tratará. A segunda, é que o "plano" está a produzir uma acelerada erosão nas taxas de aprovação do presidente, facto que, embora possa vir a ser invertido, tem e terá grandes custos políticos para Obama e para o Partido Democrático. Terceira e última: as questões internas comandam, como quase sempre, a política norte-americana o que, num mundo perigoso como aquele em que vivemos, não nos pode nem deve deixar descansados. Aliás, para pagar um qualquer plano de saúde que se aproxime daquilo que Obama tem prometido, o Estado norte-americano terá de reduzir nos gastos com a tropa. E isso, como é óbvio, é um péssima notícia para o mundo. A não ser que, claro está, os europeus passem as gastar menos nos seus sistemas de saúde públicos e mais com as respectivas forças armadas.

Zoo

Antropologia aqui.

O novo oportunista

Cada uma destas cerimónias (na verdade, sessões de propaganda em campanha eleitoral de facto) é sempre mais uma "nova oportunidade" para um Sócrates omnipresente mostrar serviço. Nestes "acontecimentos", as pessoas que vão, agradecidas, receber o computador, não são mais do que figurantes numa teatrada em que o primeiro-ministro é o actor principal. Ele está ali representando o seu papel e aqueles "alunos" passam pelo palco com um estatuto semelhante ao dos cenários: contribuem para o brilho do primeiro-ministro, compõem a cena - é só para isso que lá estão. Ou melhor, que os põem lá. Pior que figurantes, são meros instrumentos da propaganda de Sócrates.

Não é por acaso (nada disto é por acaso...) que o contemplado com o milionésimo portátil é um aluno das Novas Oportunidades - uma das jóias (falsas) da coroa da governação Sócrates. Ora, é o próprio aluno a "oportunidade" de que o primeiro-ministro se serve para fazer mais um dos seus video-números. Devia haver pudor em se servir de pessoas que estarão genuinamente satisfeitas e gratas pelo que conseguiram (se estão a ser ludribiadas, isso é outra história...). Mas não. Para este nosso primeiro-ministro, só a imagem conta - não o que haja de real por detrás dela.

Neste tipo de coisas, Sócrates tem, muitas vezes, ajudas provavelmente menos inconscientes do que os figurantes ingénuos. Vemos, assim, a solicitude tão sorridente do "rosto" principal da PT e a colaboração sempre competente da RTP, que até foi buscar as imagens de propaganda da e-escola e do fetiche Magalhães (pelo menos, houve o pudor de não mostrarem a criancinha que dizia 'o Magalhães é o meu melhor amigo'...)

E que dizer do "conteúdo" da arenga do primeiro-ministro? Para lá do tom quase choramingas sobre as "incompreensões", "críticas" e outras inexplicáveis malfeitorias (depreende-se que dos "pessimistas" e "bota-abaixistas"), disse e redisse o que estava escrito pelos vários cenários portáteis dispostos atrás de si (e que a tv, simpática, lá ia mostrando): 'um milhão de computadores, um milhão de computadores!'. No pensamento primitivo, crê-se que a insistência nas palavras mágicas acaba por operar alterações na realidade. Este primeiro-ministro parece acreditar que é despejando computadores de qualquer maneira para cima de um país, que este entra na "modernidade", como ele diz. Poderá não ser primitivo, mas é provinciano.

[Também aqui.]

Lixo

Alguém parece querer transformar o 31 da Armada num vazadouro.
Só pode ser o inimigo republicano.

Domingo, 23 de Agosto de 2009

Ser-se paciente

É precisa muita paciência para aturar parvoíces como esta...
E esta...
Também esta...
E ainda mais esta...
Nota-se que o autor, com típica maturidade, se delicia na parvoíce - que se há-de fazer?... Custa-me entender que ele manifeste tanta crueldade consigo mesmo ao expor-se daquela maneira...
Alguém me observou (não associei logo o nome) tratar-se deste mesmo que me tinha feito impressão há uns meses - e me levou a acrescentar isto (que se mantém actual, como se vê). Mas sou eu o "ressabiado" e o "ressentido", claro.

Uma das desvantagens da teia de blogs é ter-se que aturar estes zumbidos.

Martin Luther King sobre o anti-semitismo

O anti-semita delicia-se com qualquer oportunidade para soltar a sua maldade. Os tempos tornaram impopular, no Ocidente, a aberta proclamação do ódio aos judeus. Assim, o anti-semita tem de procurar constantemente novas formas e lugares para o seu veneno. Como se deve deleitar na nova mascarada! Ele não odeia os judeus, é apenas um «anti-sionista!»

De Martin Luther King, Jr., «Letter to an Anti-Zionist Friend», Saturday Review XLVII (Agosto de 1967), p. 76.

"Caldeirada à Costa"

À Atenção do Bloco de Esquerda

"Portugueses metem milhões lá fora" é notícia do Correio da Manhã. Baseia-se em dados do Boletim Estatístico publicado pelo Banco de Portugal a 20 de Agosto de 2009.

Há setenta anos I

Da esquerda para a direita, atrás: Schulze (ajudante de Ribbentrop), Schaposchnikow (Chefe do Estado-Maior General do Exército Vermelho), Ribbentrop, Stalin e Pavlov (tradutor soviético); à frente: Hilger (tradutor alemão) e Molotov.


O anexo secreto do Pacto de Não-Agressão (texto completo e reprodução), que expunha a "delimitação das esferas de interesse na Europa de Leste" do Reich e da URSS: "no caso de uma reorganização político-territorial" dos quatro estados bálticos, a fronteira norte da Lituânia "constituirá simultaneamente a fronteira dos interesses" das duas potências signatárias; "no caso de uma reorganização político-territorial dos territórios pertencentes ao estado polaco", as "esferas de interesse da Alemanha e da URSS são delimitadas pela linha dos rios Pisa, Narew, Vístula e San"; a "questão" de ser "desejável para os respectivos interesses a conservação de um estado polaco independente" só será esclarecida "no decurso de ulterior evolução política"; e acrescenta: "em todo o caso, ambos os governos resolverão esta questão no decurso de um entendimento amigável"; relativamente à Europa de Sudeste, fica reconhecido pelo Reich "o interesse do lado soviético" pela região da Bessarábia, pertencente à Roménia.
Seguir-se-ão seis anos de "reorganizações político-territoriais".

Sahara 2009

Sábado, 22 de Agosto de 2009

País de Merda

Desta vez nem a minha ignorância habitualmente protectora me valeu. Andava eu não muito longe de Lamego, lá para as bandas do Douro, e quis visitar o Mosteiro de S. João de Tarouca. Este mosteiro é o primeiro que tivemos na nossa Pátria da grandiosa ordem de Cister. A construção data do século XII e as dimensões revelam a importância da estrutura. Hoje, à excepção da igreja conventual, restam apenas ruínas. Silenciosas e devoradas pelas ervas, os vestígios que temos da obra são indignos. Não porque as ruínas sejam indignas. As ruínas, em alguns casos, dão testemunho de uma grandeza que se recusou morrer sem luta. Mas no caso do Mosteiro de S. João de Tarouca, que ainda existia incólume no século XIX, a ruína começou com um amigo da República implantada no Rossio em 1910, que comprou a propriedade - entretanto expropriada - por meia dúzia de moedas. Entreteve-se com a sua demolição nem por isso metódica. O material foi encaminhado para a construção de casarios ali na região. Encolhemos os ombros e dizemos para nós próprios: aconteceu o mesmo por toda a parte noutras épocas. Quantos templos pagãos dos derrotados Romanos forneceram pedra e mármores para as casinhas de quem precisava e já não se recordava do Império?
Avançamos para a segunda República (não me venham com a história que vivemos na IIIª República), a implantada em 1974 e consagrada em 1976. Todo o Mosteiro é propriedade do Estado. É domínio do Ministério da Cultura, incluindo a igreja conventual que contém tesouros artísticos reconhecidos, como o S. Pedro de Grão Vasco. Mas o Ministério da Cultura mandou encerrar o local, incluindo a igreja conventual. Sim, encerrar, incluindo aos turistas. Felizmente, devido ao regime concordatário, o Ministério da Cultura não pode encerrar o templo do culto, pelo menos às horas em que os sacerdotes e os fiéis aí adoram. Então, como é que eu, turista, acabei por visitar a igreja e voltar para contar? Porque um voluntário da Igreja (não, não é funcionário do Estado), um homem de sorriso triste, já envelhecido por uma vida dura e de desilusões - e que não parava de me dizer "O nosso País anda assim! Não anda bem" -, abre as portas aos forasteiros. As duas muletas de que não pode prescindir, e o deslocamento de 20 km diários para ali estar, não o desmotivam, nem à Igreja. Apesar da ruína, as portas estão abertas.
Não quero saber de quem é a culpa. O absurdo supera, por ora, os ajustes de contas. Mas que este é um País de merda que não se respeita a si mesmo, lá isso é.

Alentejo (16)

Marvão. V. Vista do cimo do castelo sobre a muralha.

Pink Floyd: "Another Brick in the Wall part 2 (Live)"



Gravado a 9 de Agosto de 1980.

Barclay James Harvest: "Child of Universe"

Tudo claro, claríssimo

Como a investigação ao caso Freeport não tem já associadas algumas suspeições de ter estado parada durante anos devido a um possível melindre para o Primeiro-Ministro ou de ter sofrido pressões para arquivamento prematuro, Cândida Almeida não viu, aparentemente, nenhuma objecção na contratação de um técnico em questões ambientais com uma longa ligação ao PS e a José Sócrates para ajudar na investigação, noticia o i.
Mas, claro, a investigação é muito séria e qualquer resultado que produza será certamente o melhor possível e o mais próximo da verdade.

Sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

As expectativas sobre o programa do PSD

Não me recordo de ouvir e ler tanto sobre um programa de governo ainda antes dele ser apresentado. A verdade é que o PS passou o Verão a clamar contra a suposta falta de ideias do PSD, consubstanciando essa crítica na ausência do programa do PSD. Já se percebeu que para o PS tudo serve para desviar as atenções da sua governação. Mas na próxima semana, com os portugueses a regressar das férias, o PSD irá apresentar a sua visão ao país.
O caminho que Portugal tem seguido nos últimos anos não serve os nossos interesses. Por muita propaganda que nos tentem impingir todos os dias, a realidade é que o governo Sócrates, ao contrário do prometido em 2005, não conseguiu inverter o atraso estrutural do país. O PSD deverá assumir no seu programa de governo uma visão alternativa e que contenha as premissas básicas do que será a base da sua actuação. Uma mensagem de optimismo, apesar das diversidades, e uma direcção que possa corrigir os defeitos estruturais que Portugal enfrenta.
O programa do PSD deverá elucidar os portugueses do que o separa do PS, seja nos pressupostos essenciais da acção politica, na própria forma de fazer politica ou na estratégia para os sectores fundamentais da governação. Como dizia na semana passada Medina Carreira, não é preciso cento e tal páginas de “baboseiras” e demagogia, com metas e propostas inatingíveis ou falseadas (o programa do PS). Se o PSD conseguir apresentar um programa conciso e claro, que aponte um caminho claro e alternativo, estou certo que poderá convencer muitos dos indecisos que ainda persistem. Felizmente os indicadores que tenho é que isso será alcançado. Na próxima semana já poderemos falar com dados concretos.

Também aqui.

Alentejo (15)

Marvão. IV. Vista sobre o castelo, à noite.

A Seguir Com Muita Atenção e Curiosidade q.b.

O futuro dirá se Beto conseguirá corresponder às expectativas que são muitas. Mas para já, trata-se de uma das mais importantes contratações da SAD dos "Belenenses" para a época futebolística de 2009-2010. Alguns detalhes do negócio aqui.

Foto: A Bola.

“ Recriações” de Luanda / um olhar optimista


Pode uma cidade ser reinventada em pouco mais de 3 anos ? Assim parece acontecer com Luanda. Mais uns anos e será impossível distinguir “ o antes” e “o depois”. Esta é uma cidade que foi projectada para o futuro e essa promessa mantém-se.

No aeroporto esperava encontrar muita gente a querer carregar a bagagem e a dar indicações. Mas o Campeonato Africano das Nações trouxe uma “brisa” de mudança ao edifício e em poucos meses os “chineses” organizaram um estaleiro e remodelaram parcialmente o aeroporto. Já na cidade o primeiro grande marco que literalmente “arranha” o céu foi construído por soviéticos e serve de túmulo a Agostinho Neto. O chamado “foguetão de betão”, em formato pontiagudo, parece demasiado grande para ser real.

Luanda é uma cidade cheia de “altos” e “baixos”, onde prédios modernos convivem lado a lado com antigas casas senhoriais. Na entrada da Assembleia Nacional a Guarda enverga um traje oficial colorido. Na mesma avenida avisto um dos loucos de Luanda que passam o dia a vaguear pela cidade lembrando-nos que a malária maltrata os cérebros e os desliga deste mundo. Na baixa, edifícios antigos foram restaurados e classificados como Património Nacional. Em muitas das avenidas principais novos projectos prometem trazer o futuro à cidade. Volto ao centro e marco uma consulta no Hospital Pediátrico David Bernardino. Demoro ainda uns minutos na entrada a admirar a sua estrutura moderna.

Esta é uma cidade que merece ser vivida, uma cidade que transpira a vontade de concretizar. Entre as filas de trânsito parado, jovens de diferentes estaturas vendem A Bola, o Jornal de Angola, lanternas, cordas, pilhas, todo o tipo de objectos utilitários. Aproveito para comprar pêra abacate que me é entregue num saco com a cara do Obama. Pena o excesso de carros, o trânsito, o lixo, mas tudo aconteceu demasiado rápido. E o “medo” de andar nas ruas, de usufruir do espaço, de circular livremente, também impede uma vivência mais harmoniosa da cidade.

Ao largo, no mar, dezenas de cargueiros impedem uma vista desafogada do horizonte. A cidade consome, tem de consumir. Ao porto chegam diariamente milhares de mercadorias. Anoitece em Luanda e na “ilha” admiro o reflexo da cidade no mar sereno da baía.

Se não fosse sinistro...

... seria a maior paródia política possível de imaginar. As fotos e imagens que vão correndo por esse mundo fora, de mulheres afegãs, de burka, rigorosamente invisíveis, de boletim de voto na mão. Mas é sinistro.

A Entrevista de Manuela Ferreira Leite

A franqueza e a simplicidade, que não o simplismo, da mensagem política deixada por Manuela Ferreira Leite na entrevista de ontem à noite na RTP auguram tudo de bom para as eleições legislativas que aí vêm. Além de tudo, na forma e na substância, a distinguir de Sócrates, Manuela Ferreira Leite falou do seu (da presidente do PSD e do PSD) programa eleitoral e esclareceu, concorde-se ou não, mas sem margem para dúvidas e sem jogos de espelhos, o seu pensamento sobre a natureza ética e o alcance político da composição das listas de deputados. Quem já gosta ou acabar por gostar das propostas e do estilo de Manuela Ferreira Leite, como é o meu caso, dará o seu voto ao PSD abrindo caminho para uma mudança no estado em que o país se encontra. Se, pelo contrário, o "povo" não se achar nem convencido nem esclarecido e o PS for o vencedor e prossiga, portanto, a governação do país com José Sócrates como primeiro-ministro, das duas uma. Ou há um milagre, ou o último a sair que apague a luz e feche a porta.

Quinta-feira, 20 de Agosto de 2009

Os países que acolhem bem os terroristas já devem ser uns países malvados

Se há um ano o terrorista responsável por Lockerbie fosse liberto por questões humanitárias e regressasse à Líbia no meio de celebrações do regime khadaffiano, não faltaria quem visse nesta provocação (não só aos Estados Unidos, como dizem as notícias, mas a toda a gente que valoriza um mínimo de civilização) uma resposta a George W. Bush, ao unilateralismo americano, à guerra no Iraque, enfim, a qualquer maldade americana merecedora da respectiva ensaboadela por país respeitável de categoria semelhante à Líbia, ao Irão, à Coreia do Norte ou ao Sudão - e, logo, devidamente aplaudida pela sempre obliging esquerda europeia que adora qualquer 'lição' dada aos Estados Unidos independentemente da proveniência e da razoabilidade.
Vamos esperar que sendo Obama presidente se possam chamar as coisas pelos nomes e qualificar certos países com os qualificativos que merecem.

Mensagens e Mensageiros

Nesta história das alegadas escutas, naturalmente ilegais, de que gente da Casa Civil ali em Belém se tem queixado, e independentemente da forma como a história venha a acabar, quero notar que me interessam muito mais as mensagens do que os mensageiros. E justamente por não lhe interessarem mesmo nada as mensagens é, que por exemplo, alguém mandou Francisco Assis dizer que desafia Cavaco Silva a falar mandando calar. Como é óbvio, na qualidade de mais um entre muitos mensageiros.

É óbvio...

... que o Presidente da República não pode permitir que assessores seus comuniquem anonimamente - isto é, sem qualquer possível responsabilização pelo que dizem - com a comunicação social, sugerindo que a Casa Civil está sob vigia. Nem estamos habituados a isso, com Cavaco Silva. O assunto é gravíssimo. Não pode ficar nas núvens.

Alentejo (14)

Marvão. III. Uma das ruas da vila, que conta com 645 habitantes (Censos 2001).

Casas de Lá


Edward Hooper, House by the Railroad, 1925

Quarta-feira, 19 de Agosto de 2009

Já fui...

... de férias e já voltei. Mas pelo andar da carruagem (acabo de reparar na alta temperatura a que nos últimos dias chegou o debate político dentro e fora da blogosfera), parece-me que regressarei ao sítio de onde há pouco cheguei mais cedo do que poderia imaginar.

Caldeirada de verão com todos

Vídeo para animar o verão político nacional.

Alentejo (13)

Marvão. II. Pôr do sol visto do alto das muralhas.

Terça-feira, 18 de Agosto de 2009

Retrato do judeu na literatura do Renascimento português

Não vou falar de Gil Vicente.

Vou falar – e transcrever parte – de um poema recolhido no Cancioneiro Geral de Garcia Resende. É notável a vários títulos. Não se trata propriamente de uma boa obra literária, mas de um documento que impressiona, pelo que revela ou indicia dos contornos da presença judaica em Portugal, antes da conversão forçada de 1497.

O nome do autor, Luís Henriques, vai no título do poema, que transcrevo a partir da edição do Cancioneiro, da INCM. Das letras, sou apenas um amador, de modo que quem puder corrigir ou melhorar a minha modesta leitura, recebe desde já o meu agradecimento.

Em primeiro lugar, o poema é virtualmente ilegível, hoje, dada a enorme quantidade de hebraísmos usados. Nas estrofes que transcrevo, nada menos de 20, se bem contei. Seria assim tão fácil ao leitor dos últimos cinquenta anos do século XV ler e compreender tantos vocábulos hebraicos, ligados às práticas religiosas da minoria? O autor faz rimar berakha (bênção), com minkha (serviço religioso da tarde) e shabba[t], com uma tal naturalidade, que é legítimo considerarmos uma resposta afirmativa à pergunta.

A abundância de hebraísmos é tão conspícua como o amplo conhecimento que o poeta tem da vida judaica: hábitos familiares, como o comportamento do casal durante o período menstrual da mulher, hábitos alimentares, liturgia, etc. É evidente que Luís Henriques não é judeu, nem converso. E é isso que torna o seu conhecimento verdadeiramente surpreendente.

Em segundo lugar, o poema é um repositório dos estereótipos anti-semitas, interessantíssimo para se poder compreender a mentalidade da época. Não há nada de anacrónico no uso que acabo de fazer do termo anti-semita. Trata-se, com efeito, de estereótipos predominantemente raciais, onde a abjecção do judeu se prende muito mais com as suas «características naturais», «físicas», ou «étnicas», «morais», do que com a sua danação teológica.

O poema é, na sua primeira parte, até à nona estrofe (numeração minha, e não do editor, para facilitar esta pequena introdução), uma longa lamentação/imprecação contra Catarina, que se deixou seduzir por um judeu, em desfavor do poeta/sujeito da elocução, cristão.

Leia-se, em particular, com atenção, a caracterização do judeu nas estrofes oitava e nona, onde ele é descrito como tendo «nariz de rolha», «fanado» (quer dizer, mutilado, numa alusão à circuncisão), mas de «gentil forgicar» (um animal sexual), vigarista, feio, muito feio, de «ruim sembrante», «desmazelado», e, claro, pouco sincero na sua conversão. Numa estrofe que não reproduzi, a quinta, o judeu, em suma, «fede».

Apesar da traição, o poeta aceita que perdeu o seu amor, e resolve dar conselhos a Catarina, da décima estrofe em diante, sobre como se deve comportar com o judeu: agora que «sois casada», «ò menos i avisada».

Na décima sétima, e última, estrofe, compreende-se, enfim, que a resignação é aparente. De facto, a vingança vai levar a melhor. A traição de Catarina ter-lhe-á saído cara: o poeta «castra» o judeu, ou melhor, dá-lhe a nova, «com que moiras [morras] de pesar, de grande dor e cuidado» – «vosso bem não tem bezis [testículos]».

O antagonismo entre a minoria e a maioria é, pois, aqui encenado como rivalidade sexual. Está muito longe, este facto, de poder ser considerado uma idiossincrasia de Luís Henriques. Grande parte da legislação medieval visava punir qualquer hipótese de contacto entre cristãs e esses seres de «gentil forgicar/pel’arte dos seus parentes»: os judeus, como os caracteriza o poeta.

Para tornar possível a leitura deste longo poema, cortei, na transcrição que faço, sete estrofes. A seguir a cada uma, identifico os hebraísmos e arcaísmos mais decisivos e difíceis, e tento decifrá-los, com ajuda, quase sempre, do útil dicionário, que constitui o VI volume da edição da INCM. Não adopto algumas das lições nele contidas, por me parecerem erradas. E adopto outras. Divirtam-se. Se puderem.


DE LUIZ ANRIQUES A UA MOÇA COM/QUE ANDAVA D’AMORES, ANTES DE/SE OS JUDEUS TORNAREM CRIS-/TÃAOS, E U JUDEU CASADO/E ALFAIATE, A QUE ELA/QUERIA BIEN, O FEZ/TORNAR CRISTÃO/E CASOU COM/ELE.


(i) Vós que naceste má hora,
vós que nela vivereis,
nom menos acabareis,
pois sois de Jamila nora.
Vós que achastes dentro ou fora
esse mazal que tomastes
de que, guai, vos contentastes,
em fort’hora
vos dei nome de senhora!

[Jamila: nome de origem arábica, mas bastante comum entre as judias medievas; testemunho da época anterior à «reconquista», onde as culturas dos povos das três religiões se influenciaram profundamente entre si; mazal: hebraísmo, sinónimo de sorte, neste caso, partido; guai: exclamação equivalente a «Ai!», muito típica do linguajar dos judeus lusófonos medievais, como se pode ver em Gil Vicente, por exemplo; forte: sentido arcaico, mau, má, quer dizer, neste caso, «má hora»]

(ii) Qu’achaste ò ahanim
que vos assi namorou?
Rezar bem o Tafalim,
ou com que vos çacabou?
Em jurar por minha lei,
ou polos dez mandamentos,
ou dizer: - Viva El-Rei!
em seus estrevançamentos?

[Ahanim: hebraísmo, pobre, neste caso com sentido pejorativo de «desgraçado»; tafalim: hebraísmo, tefilin, os filactérios usados diariamente pelos judeus na oração, de costume, matinal; na última estrofe aparecerá a expressão jurar «nuus tafelis»; çacabou, hebraísmo, de çacabar, enredar, prender na rede; estrevançamentos: arcaísmo, atrevimentos]

(iii) Em rezar o baraha,
ou de que foste contente?
Ou em ser mui diligente
quando vão à minaha?
Em guardar bem o sabá,
ou cheirar-vos à defina?
Como foste tão mofina,
Katerina,
sobre serdes muito maa?

[Baraha: hebraísmo, berakha, bênção; minaha: hebraísmo, minkha, serviço religioso da tarde; sabá: hebraísmo, shabbat; é curioso notar que o verbo usado é guardar, tradução literal da expressão hebraica apropriada: shomer shabbat, guardar o shabbat, isto é, observá-lo; defina: hebraísmo de origem aramaica, com que se designava o cozido das refeições do shabbat, ao tempo dos judeus medievais portugueses; mofina: arcaísmo que quer dizer desdita, desditosa, quando adjectivo, aqui com o sentido pejorativo de «desgraçada», por exemplo]

(iv) Pareceu-vos bem cadoz
ouvindo-lhe alguu dia,
ou por ventura seria
por quebrar co outro avoz?
Ou vos namorou sa voz
em cantando na sinagoga?
Quem vos visse numa soga
a cea voga
açoutar daqui tee coz!

[Cadoz: hebraísmo, kadosh, santo; avoz: indecifrável; soga: arcaísmo: correia; nota: os últimos três versos são de leitura muito difícil; talvez se trate aqui do lançamento de uma maldição, envolvendo açoite]

Passo as três estrofes seguintes: o poeta a seguir blasfema, e depois acusa Catarina de se ter deixado arrastar pelas investidas do judeu, com ofertas de fruta e bons manjares. E prossegue na oitava estrofe:

(viii) Ora volvamos-lh’a folha
achá-lo-ês bem galante,
ele tem nariz de rolha
sobre ter ruim sembrante.
É uu pouco ajudengado,
no falar e no trazer,
é também cercuuncidado
quer fanado,
como folgaste saber.

[Fanado: arcaísmo, cortado, mutilado... Referência à circuncisão]

(ix) Tem u gentil forgicar
pel’arte dos seus parentes,
tem lá outro embolar
e jogueta de bulrar
sem lhe cairem os dentes.
É crespo, refoucinhado
que lhe descobre a orelha,
é um pouco acogombrado,
desmazelado,
e depois é uma ovelha.

[Forgicar: arcaísmo, fornicar; embolar: arcaísmo: iludir, enganar; jogueta: arcaísmo, de joguetear, gracejar, fazer jogos de espírito; bulrar: arcaísmo, burlar; refoucinhado: arcaísmo, sinónimo de encrespado, encarapinhado; acogombrado: arcaísmo, que tem feição de pepino (?)]

(x) Pois vos o deemo tomou
a seguirdes tal errada,
co conselho que vos dou
ò menos i avisada.
E pois que já sois casada,
sabei seguir esta via:
que os que vêm da lei cansada,
par Deus, nam lhes pesa nada,
jurá-lo-ia,
com cousas da judaria.

[Lei cansada: expressão sinónima de Lei Velha, Judaísmo, no jargão cristão da época; par Deus: interjeição – Por Deus!; pesa: de causar pesar, dor, mágoa, arrependimento]

Seguem-se, ao longo de quatro estrofes, uma série de sugestões culinárias, um riquíssimo repertório dos hábitos gastronómicos na judiaria portuguesa. E depois:

(xv) Quando com vossa camisa
andardes, terês aviso,
nem façais daquesto riso,
gradecei quem vos avisa:
com ele vos nam jareis
mes passados sete dias,
e tavilaa vós fareis
e dormireis
co parente das judias.

[Camisa: arcaísmo, menstruação; jareis: conjugação arcaica do verbo jazer, com sentido de ficar com, estar ao lado de, dormir com; mes: eu leio mas; tavilaa: hebraísmo, tevilah, banho ritual judaico, que todas as mulheres fazem sete dias após o fim da menstruação, antes de voltarem à plena vida conjugal]

(xvi) Quando vieer ò comer,
que for ò partir o pam,
dir-vos-á u oraçam,
sabê-lhe vós responder:
- Baru ata Adonai Eloeno
sam as palavras que ele diz.
- Amoci leha minariz,
lhe responderês, e peno,
pois meu bem foi tam pequeno.

[Esta é sem dúvida a estrofe mais densa de hebraísmos; o poeta ensina Catarina a participar na Bênção do Pão, que os judeus fazem sempre antes de comer o alimento que, na tradição judaica, tem o mais elevado valor religioso simbólico, ao lado do vinho. A Bênção, na sua transliteração moderna diz: Barukh atá Ad-nai (Bendito sejas Tu, Deus), Elo-eno melekh haOlam (Nosso Senhor, Rei do Universo), Hamotzi lekhem (que fazes com que o pão surja) Min haAretz (da Terra). Todas as palavras da Bênção do Pão são reconhecíveis, com ligeiras transformações, no poema]

(xvii) Depois do conselho dado
e nova vos quero dar
com que moiras de pesar,
de grande dor e cuidado:
vosso bem não tem bezis,
que sam companhões, em habraico,
jurou-me nuns tafelis
u laa do povo judaico.

[Moiras: forma arcaica de «morras»; Bezis, companhões: a primeira forma é um hebraísmo, como o próprio poema indica – quer dizer testículos]

Importam-se de explicar o que se passa?


Um membro da Casa Civil do Presidente da República, em declarações hoje ao Jornal Público, faz hoje uma pergunta muito grave: "Será que estão a ser observados, vigiados? Estamos sob escuta ou há alguém na Presidência a passar informações? Será que Belém está sob vigilância?" Até agora, que eu saiba, não houve qualquer desmentido da Presidência da República sobre estas declarações. Entretanto, José Sócrates considerou o episódio como um "disparate de Verão". Como? Disparate de Verão? Importa-se de repetir?

Então existe a dúvida sobre se os serviços da Presidência estão sob escuta e se os assessores de Cavaco Silva estão a ser vigiados e esta suspeição é qualificada pelo Primeiro-Ministro de Portugal como um disparate de Verão? Muito mal vai a nossa democracia quando os assuntos de Estado desta gravidade são tratados pelo Primeiro-Ministro com esta ligeireza. É urgente um esclarecimento. Ou então outras consequências políticas. Que venham depressa as eleições legislativas que o clima político começa a ficar doentio e insustentável.

O «i»

... tem hoje uma manchete extraordinária. Com o verbo suavizar. Podia ser atapetar, acolchoar, afagar, fazer festinhas, fretes, dar beijinhos. Lá dentro, uma série de cartazes eleitoriais, que vão por este país fora. Os tesourinhos deprimentes, ao lado daquilo, são anfetaminas. O Público, por seu lado, mete medo.

Imagens de campanha


Desafiado pelo Rodrigo Saraiva, juntei-me a ele para lançar o Imagens de Campanha. Eis a explicação do que pretende ser este blog sazonal. Passem por lá.

Segunda-feira, 17 de Agosto de 2009

Iliteracia económica à solta

A politização analfabeta dos dados da conjuntura económica dá nisto. Toda a gente tira ilações de suspiros decimais. Seria de morrer a rir, se completamente ao lado de tanta estupidez não houvesse meio milhão de desempregados, ao que parece para ficar, por muitos e terríveis anos.

Parece que o senhor primeiro-ministro entrou em delírio aos 0,3. É óbvio que os dados da tendência não fazem notícia. A coisa vem de longe, de muito longe, de há muito tempo, e é indigerível pelo discurso político, muito mais em período eleitoral, onde a demagogia assume proporções grotescas. Que fazer?

Imaginem

Imaginem que em 1979 um Presidente de Câmara proposto pelo PSD e de novo candidato a Presidente de Câmara pelo PSD concedia, a um mês das eleições, uma entrevista ao Expresso e à RTP onde declarava que não votava no PSD de Sá Carneiro e que admitia votar no PS de Mário Soares.
Será que o PSD de Sá Carneiro se conformava com as declarações e continuava a propor o referido autarca como candidato do PSD a Presidente de Câmara ?
Voltando a 2009 imaginem agora que um Presidente de Câmara eleito pelo PS, dava uma entrevista ao Expresso e à SIC, a um mês das eleições, onde declarava que não iria votar no PS e que admitia votar no PSD.
Será que José Sócrates e o PS se conformavam com as declarações e consentiriam que o PS mantivesse a propositura da candidatura?
Imaginem agora que o caso se dava no CDS de Paulo Portas, ou no BE de Loucã, ou no PCP de Jerónimo.
Será que os respectivos partidos mantinham a candidatura ?
Os factos são reveladores da natureza em que o PSD, infelizmente, se tem vindo a tornar.

Alentejo (12)

Marvão. I. Esta é a primeira fotografia de um 'especial' que preparei sobre esta belíssima vila do Alto Alentejo, outrora ponto estratégico para a defesa das fronteiras nacionais. Aqui, vista para o castelo.