
Tem-se dito que a atribuição do Nobel da Paz a Obama é uma forma de condicionar a política externa americana, agora obrigada a honrar as grandes expectativas depositadas no actual Presidente. Se assim fosse, passaria a ter uma certa admiração pela capacidade política dos escandinavos. Infelizmente, parece-me que os motivos da escolha são mais simples. Este é um feel good Nobel. Obama é distinguido porque não é Bush, porque é o primeiro negro no cargo e porque faz discursos empolgantes sobre hope e change. É o novo Kennedy, o líder que conduzirá o mundo a uma era de paz e amor.
Todos gostamos de esperar o messias de vez em quando, alguém que chegará a qualquer momento com a salvação universal e a concretização dos nossos sonhos. Permite-nos projectar no futuro a aspiração universal à utopia. Um dia, "isto" vai ser melhor por obra e graça de um enviado dos deuses. Não se trata apenas de um sentimento religioso, embora se aproxime muito: Aron mostrou a natureza profundamente messiânica da esquerda e chamou ao comunismo do seu tempo "religião secular". Com as devidas distâncias, poderia dizer o mesmo do progressismo hoje dominante no Ocidente.
Todos gostamos de esperar o messias de vez em quando, alguém que chegará a qualquer momento com a salvação universal e a concretização dos nossos sonhos. Permite-nos projectar no futuro a aspiração universal à utopia. Um dia, "isto" vai ser melhor por obra e graça de um enviado dos deuses. Não se trata apenas de um sentimento religioso, embora se aproxime muito: Aron mostrou a natureza profundamente messiânica da esquerda e chamou ao comunismo do seu tempo "religião secular". Com as devidas distâncias, poderia dizer o mesmo do progressismo hoje dominante no Ocidente.
Um ano depois de eleito, quando os americanos começam a dar-se conta de que Obama afinal é humano, ele continua a representar para os europeus a promessa de um mundo melhor. A política também se faz assim.



11 comentários:
Quem ofereceu este prémio a Obama foi G.W. Bush pela sua atroz prestação enquanto presidente dos EUA.
Bastou os EUA regressarem à civilidade para se notar imediatamente a diferença entre o normal e o mau.
Daí este prémio.
Bom texto.
Espero já agora que a presidência de Obama não descambe na mesma merda que foi a de Kennedy, com o escalar da guerra do Vietname e crimes de guerra sem conta.
Mas felizmente o poder dos EUA já não é o mesmo, e os check and balances na cena internacional são agora muito mais fortes...
Luís Lavoura
Caro Pedro Picoito,
O que tem a dizer da "política de verdade" quando o cabeça de lista a deputado, por Braga, pelo psd, se demite ao fim de trinta minutos de ter tomado posse? Acho que o psd não fica muito bem na fotografia, e seria interessante o Cachimbo postar sobre o assunto.
Cump
NMS
Um preciosismo: antes de Aron já Eric Voegelin havia tratado adequadamente o tema no livro de 1938 "Die politischen Religionen". As "religiões seculares" de Aron são as "religiões políticas" de Voegelin e o tratamento dos messianismos políticos uma constante na obra de Voegelin. A incorrecção não é pouco comum, ainda há não muito tempo li o mesmo na National Review... mas o seu a seu dono.
Como é que era? "A esperança não faz política."
Anónimo o que é isso da "esperança não faz poltica"?
NMS, vou escrever um post sobre isso.
Nuno, obrigado pela correcção. Não fui buscar o conceito ao Voegelin, que aliás conheço muito mal (se bem me lembro, só li dele um texto sobre a Utopia do Thomas More). Assim sendo, vou manter a citação do Aron.
"Anónimo o que é isso da "esperança não faz poltica"?"
Ouvi-a há dias, como título de uma notícia de jornal ou assim. Ficou-me na cabeça e acho que se aplica perfeitamente a Obama.
Tanto Deus como Obama não têm certidão de nascimento.
O Romantismo dá nisto...
Lucklucky
Pequim e Moscovo já comentaram?...
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