Quarta-feira, 29 de Julho de 2009

Crocs & Havaianas

O jornal i tem hoje uma pequena reportagem sobre as já-não-tão-na-moda crocs, “uma espécie de sapato-sandália-sabrina em cores vibrantes”, que no ano de 2007, no pico do sucesso, eram vendidas à razão de 128 mil por dia. Os pais das crianças diziam ser a melhor invenção desde as fraldas descartáveis. Nada a obstar. O pior foi quando vi um pai dessas crianças alegremente calçado com umas crocs – vá lá que eram cinzentas e não rosa-choque ou verde-alface – ao mesmo tempo que se justificava com uma ponta de constrangimento que eram muito confortáveis. Parece que a moda despegou e as lojas da marca têm os armazéns cheios de crocs que não conseguem escoar. Dos 120 milhões de euros de lucros em 2007 passou-se para os 130 milhões de prejuízos em 2008.

Ao contrário das crocs, as havaianas são já uma invenção antiga e o seu reinado estival está para durar. Há cerca de 30 anos tinham um nome e uso diferente: chamavam-se sayonaras (era o nome que se usava em minha casa) e estavam destinadas a dar um ar da sua graça no período de praia. Agora as havaianas são usadas em qualquer lado: na praia e na cidade, de dia e de noite, na mercearia de bairro e nas discotecas. É um sinal dos tempos. Há menos de vinte anos, em Lisboa, ainda havia a possibilidade de ser vedada a entrada numa discoteca a quem calçava ténis. Há menos de dez anos, num restaurante dos EUA, ainda comentava com o meu amigo das crocs a estranheza que sentíamos ao ver ao nosso lado os americanos de calções e camiseta dos Lakers (os portugueses não se prestavam a tristes figuras como aquelas). Tudo mudou em menos de nada. Depois da surpresa que foi ver um amigo de crocs calçadas, vejo agora dois outros amigos de havainas: um a almoçar na cantina ao lado do Lux e outro a beber uma cervejola à noite na Bica.

Falo de amigos e não de amigas porque, de algum modo, no que toca ao vestuário, acho que as mulheres têm o direito a uma outra excentricidade. Não é por acaso que existe uma anedota machista que denuncia com condescendência o gosto que as mulheres sentem em andar descalças. É claro que as crocs e as havaianas não dizem "tudo" acerca destes meus três velhos e bons amigos. O facto de eles se terem rendido a elas diz mais sobre o tempo em que vivemos. O salto civilizacional a que correspondeu também o uso dos sapatos definia o Ocidente Europeu (os homens primitivos é que andavam descalços). Actualmente assiste-se ao percurso inverso. Os brasileiros exportam as havaianas e democratizam o seu uso na baixa de Lisboa como se estivéssemos no paredão das praias do Rio. A decadência que nos toca a todos (há quem lhe chame progresso) não pode deixar de se manifestar também no modo como nos apresentamos.

10 comentários:

M Isabel G disse...

Isto daria para uma dissertação :)
O Nuno saberá que Havaiana é uma marca que, muito divugalda, passou a ser vulgarizada como modelo. Em não tendo havaianas, sempre há as xanatas ou chinelas (tb já ouvi xanatos e chineloss), provavelmente a versão barata dessa marca brasileira, ou talvez não.
Para além de algum investimento em pedicure, creio que se não se deixar fugir o pé para o chinelo, não há "problema" nenhum :)

M Isabel G disse...

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Não.. não consigo imaginar-me ao lado de alguém com crocs nos pés ...:)

Nuno disse...

Sim Nuno.. as Crocs são feias de mais para poderem sequer ser confortáveis.... e as Havaianas são giras para a praia - concordo contigo que em Lx é mauzinho!!

Abraço e até já!

Anónimo disse...

Não digam mal das crocs, pá

amigo-do-almoço-na-cantina-ao-lado-do-Lux disse...

Ah ah, este gajo é lindo!

Faz-me lembrar um grande filósofo amigo meu senior partner aí numa das big5 que do alto da sua experiência e pragmatismo de quem ascendeu de paquete à sua actual posição: "eh pá, estás a confundir *oder com colar vidros"

Só para te dar matéria para mais posts: só me visto por conforto e protecção (frio, sol, chuva) e infelizmente porque se convencionou, leia-se encheu-se de trampa a cabeça das pessoas, com pressões da sociedade (chamemos-lhe assim para não entrar noutros territórios) em lidar com o corpo humano, chamando feio ao que todos nós temos.

Quando se instituíu a farda para nivelar diferentes contextos sociais, a ideia era mesmo não olhar se fulano X era da família de nome composto Y de Z ou do bairro social W.
Nús estamos todos nós as 24h do dia pois vivemos com o nosso corpo. Há quem se esqueça disso.
Essa é a nossa farda, todos diferentes mas todos iguais na diferença.
Sabes onde uma pessoa sente-se mais digna que em qq outro lugar? Nas praias de nudismo.

Mas as pessoas 'vestem' a cabeça de tabus e a partir deles julgam, comentam, rotulam, tal é o desconforto que têm instalado da formatação da sociedade.

Já vivi do lado de lá do Atlântico, e confirmo que nós europeus somos muito 'apertados'.

Tu falas de crocs e havaianas, quando debaixo da superfície estão convenções e outras opressões.

Nem de propósito, profissionalmente estou hoje a lidar com temas do trânsito intestinal. Em Portugal há 2milhões de pessoas com problemas de regularidade. Claro que regimes alimentares pobres em fibras e ricos em lípidos dão nisto, mas a maior causa sabes qual é? É a sociedade que encheu a cabeça das pessoas com prejuízos "é feio", "é sujo", "não se faz", "menino feio" isto interiorizado leva a problemas de consciência, a adiar idas à latrina e afins, depois anda tudo entupido e rezingão com a vida.

É sempre um prazer almoçar contigo :)
In shaa Allaah o tempo aguente para poder usar as minhas havaianas até final de Setembro.

Nuno Lobo disse...

Aguenta, de certeza (o São Pedro é amigo). Olha, fiquei sem palavras... prefiro guardar as risadas para um mano-a-mano ao vivo. Por esta altura já só penso no Sporting (ao menos aí, o nosso acordo é pleno). Aquele abraço, NL

john disse...

Há menos de vinte anos, em Lisboa, ainda havia a possibilidade de ser vedada a entrada numa discoteca a quem calçava ténis.

Isto já mudou? Óptimo. Sempre me pareceu um disparate "seleccionar" (para não dizer discriminar) as pessoas que entram nas discotecas com base naquilo que vestem.

Um dia destes experimentarei ir a uma discoteca da moda de t-shirt, jeans e com os meus confortáveis calçados. Depois contarei a experiência.

Mas sim, as crocs são horríveis. Não me passa pela cabeça impedir alguém de entrar numa discoteca por ter umas calçadas, mas eu jamais enfiaria coisas daquelas nos pés.

Maria João Marques disse...

Os crocs são indescritíveis. Nem sei como aquilo foi um sucesso. Já as havaianas, verdadeiras ou não, são muito recomendáveis para a praia, ainda que eu não use, mas eu sou uma snob com os sapatos. Fora do contexto praia, sandálias de enfiar no dedo são muito bem-vindas - desde que não de plástico como as havaianas, por favor!

Anónimo disse...

conta lá mas é a andedota machista

Nuno Lobo disse...

Fica para uma outra oportunidade.