Apesar de tudo, costumo ler o Henrique Raposo. O "tudo" é o seu frequente sacrifício do rigor à retórica, um pecado de que ninguém está livre na blogosfera. Mas alguns caem mais do que outros, e o Henrique voltou a cair.
Farto do amesquinhamento da pátria, desatou a "dizer bem de Portugal". Nada contra. Só não entendo porque foi buscar o Fernão de Magalhães, que iniciou a volta ao mundo ao serviço de Espanha e morreu pelo caminho, deixando a Juan Sebastián Elcano a glória de concluir a epopeia. E ainda menos entendo a frase que atribui a Magalhães, colhida, ao que parece, de uma tshirt: "A Igreja diz que a Terra é plana, mas eu sei que é redonda, pois vi a sua sombra na lua. E eu tenho mais fé na sombra do que na Igreja."
Esta frase ensina mais sobre o postador do século XXI do que sobre o navegador do século XVI. Aliás, dificilmente seria do homenageado, por razões que me atrevo a comunicar a Vexas em nome de um mínimo de pudor histórico.
Em primeiro lugar, a Igreja não dizia que a Terra era plana. Havia quem o dissesse, claro, mas a Igreja estava mais entretida em curiosidades como o hilemorfismo de Cristo ou a transubstanciação eucarística, que levavam a guerras, cismas e autos-de-fé avulsos a necessitar de acompanhamento próximo. A forma do mundo não era exactamente matéria de dogma. E se era, o Henrique que nos esclareça qual o Papa, concílio, encíclica, bula ou sacristão que impôs pelo ferro e pelo fogo a crença de que os barcos, chegados ao fim do orbe, caíam no abismo.
Além disso, todos os europeus que conhecessem a cosmografia grega, recuperada no século XII, sabiam que a Terra era redonda. Um deles, Cristóvão Colombo, estava mesmo convencido de que poderia chegar ao Oriente atravessando o Atlântico, e convenceu disso os reis de Espanha - trinta anos antes de Magalhães e sem invocar a lua. O raciocínio parecia imbatível: sendo a Terra redonda, chegar-se-ia mais depressa às Índias navegando para oeste do que contornando África pelo sul, como tentavam há décadas os portugueses. Só havia um problema pelo meio: a América. E assim Colombo descobriu um continente sem dar por isso.
Farto do amesquinhamento da pátria, desatou a "dizer bem de Portugal". Nada contra. Só não entendo porque foi buscar o Fernão de Magalhães, que iniciou a volta ao mundo ao serviço de Espanha e morreu pelo caminho, deixando a Juan Sebastián Elcano a glória de concluir a epopeia. E ainda menos entendo a frase que atribui a Magalhães, colhida, ao que parece, de uma tshirt: "A Igreja diz que a Terra é plana, mas eu sei que é redonda, pois vi a sua sombra na lua. E eu tenho mais fé na sombra do que na Igreja."
Esta frase ensina mais sobre o postador do século XXI do que sobre o navegador do século XVI. Aliás, dificilmente seria do homenageado, por razões que me atrevo a comunicar a Vexas em nome de um mínimo de pudor histórico.
Em primeiro lugar, a Igreja não dizia que a Terra era plana. Havia quem o dissesse, claro, mas a Igreja estava mais entretida em curiosidades como o hilemorfismo de Cristo ou a transubstanciação eucarística, que levavam a guerras, cismas e autos-de-fé avulsos a necessitar de acompanhamento próximo. A forma do mundo não era exactamente matéria de dogma. E se era, o Henrique que nos esclareça qual o Papa, concílio, encíclica, bula ou sacristão que impôs pelo ferro e pelo fogo a crença de que os barcos, chegados ao fim do orbe, caíam no abismo.
Além disso, todos os europeus que conhecessem a cosmografia grega, recuperada no século XII, sabiam que a Terra era redonda. Um deles, Cristóvão Colombo, estava mesmo convencido de que poderia chegar ao Oriente atravessando o Atlântico, e convenceu disso os reis de Espanha - trinta anos antes de Magalhães e sem invocar a lua. O raciocínio parecia imbatível: sendo a Terra redonda, chegar-se-ia mais depressa às Índias navegando para oeste do que contornando África pelo sul, como tentavam há décadas os portugueses. Só havia um problema pelo meio: a América. E assim Colombo descobriu um continente sem dar por isso.
O Henrique Raposo também é um navegador. Infelizmente, às vezes descobre o continente errado.



7 comentários:
Como sempre, os pontos nos "iii". Um belíssimo postal.
Desiste, Pedro. Não vale a pena. É o mais empedernido dos mitos. No Ocidente não há nenhuma autoridade a sugerir uma "terra plana" depois do séc. IV a. C.(não, nem Lactâncio nem Cosmas Indicopleustes contam...); todas as teorias cosmográficas europeias sempre foram "de esfera"; falar em terra plana foi sempre sinal de ignorância ou demência... mas nada disto interessa para os Henriques Raposos deste mundo, sobretudo se meter Igreja à mistura...
Mais um democrata que não aceita comentários directos ao que escreve.
E apenas podemos rezar por uma alma que tem mais fé na sombra no de que na Luz.
Bom artigo! Pelo menos desta vez! Estou a brincar! Na verdade, como já disse ao Paulo, a maioria dos seus artigos são de grande qualidade;´na minha modesta opinião.
Bem haja!
Francisco Pestana de Vasconcelos
Não daria tanto crédito ao Colombo. Está certo que ele sabia que a terra era redonda, afinal navegou entre nós durante muito tempo, alguma coisa há de ter aprendido. A nossa epopeia foi racional e científica (pena termos perdido o hábito...)
Mas convenhamos, ele não fazia a mais pequena ideia do tamanho do planeta, e o D. João II estava muito melhor informado, daí tê-lo mandado dar uma volta.
Arrumou bem o Magalhães, que também é da mesma laia; trabalhou muito pelo país, mas meteu-se com ideias peregrinas e acabou morto. É o que dá vender-se aos castelhanos. E deve ter sido frustrante chegar ao lado de lá e econtrar 'tugas!
'E eu tenho mais fé na sombra do que na Igreja.' - pois. Está tudo dito, Pedro.
No tempo de Colombo, já era generalizada a convicção (conhecimento) de que a Terra era redonda. A razão para o ceptcismo que mereceu o projecto de Columbo tinha outra origem - segundo a convicção geral, o diâmetro da Terra era demasiado grande para que se podesse navegar até à Índia por Ocidente. Os barcos não caiam num abismo no fim do mundo, mas as tripulações pereceriam de fome e sede ao tentarem atravessar o Atlântico.
A ironia é que esses cálculos eram muito precisos, e Colombo é que estava enganado. Colombo estimava um diâmetro da Terra muito menor que o real, o que possibilitaria a sua viagem.
Se não existisse um continente entre a Europa e a Ásia - a América -, Colombo e a sua tripulação teriam morrido sem deixar rasto. A América foi descoberta pelo acaso, graças à incompetência de Colombo. E não, de forma alguma, por ele saber mais do os seus contemporâneos.
Enviar um comentário