Quarta-feira, 27 de Junho de 2007

Da série "Posta Restante"

"Nunca se falou tanto, nomeadamente nos meios de comunicação social, sobre o fenómeno religioso, mas nunca como hoje ele foi tão ignorado, tão pervertido e instrumentalizado. Ouvimos obsessivamente as palavras fundamentalismo, extremismo reliogioso, guerra santa, fanatismo, conflito religioso. O discurso público está saturado de informação dita religiosa, mas sabemos cada vez menos, não apenas o significado dessas palavras, mas também, de uma forma geral, de que se fala quando se fala de religião."
Esther Mucznick, "A religião nos manuais escolares: uma visão laicista", in Atlântico, Junho de 2007

12 comentários:

Anónimo disse...

É evidente que uma sociedade inimiga da religião (estou a pensar nos media) dificilmente pode perceber puto do fenómeno religioso.
Ontem, na SIC, ouvi o Pedro Abrunhosa dizer qualquer coisa como: «A religião não passa necessariamente por se acreditar em Deus...», e depois continuou a dizer como a música que agora fazia era muito espiritual, etc. Fiquei esclarecido. A maior dúvida é saber se fico mais espantado com a ignorância no meu país, se com o à vontade com que se diz a primeira coisa que sobe à cabeça!

João Vasco disse...

A religião católica teve cerca de mil anos de predomínio religioso e doutrinário suficiente para se poder explicar bem explicada. Mil anos! Se hoje ainda ninguém entende nada de religião talvez as religiões tenham alguma responsabilidade no modo como se serviram de todo aquele tempo disponível para se explicarem...

vague disse...

Penso q há uma coisa q é importante esclarecer, para se falar numa linguagem comum: é q a religião 'passa' efectivamente por deus, seja qual for o deus (e não estou a incluir objectos endeusados no conceito de deus, obviamente)

Entendo q Deus (para mim é 'Deus', sou católica com 'praticamente' pouca prática dos rituais :)


Parafraseando a afirmação do Pedro Abrunhosa, eu direi que

"Acreditar em Deus não passa necessariamente com as formas ritualizadas da fé, nem passa necessariamente pela igreja'

mas a religião passa por deus, sim.

Podemos endeusar seres, objectos, estados místicos, mas não lhes chamemos deus.

Acho q excedi o meu tempo de antena :)))

Anónimo disse...

Vague,
concordo com o sentido geral do seu argumento, pois qualquer pessoa minimamente esclarecida sabe que a religião é, sempre foi, uma manifestação da relação humana com Deus; mas essa relação não pode deixar de ser materializada num conjunto de normas, preceitos, ritos, cerimónias, etc, ou seja, enquadrada socialmente.
João,
a experiência religiosa tem de ser vivida para ser adequadamente compreendida; de qualquer modo, no que respeita à Igreja, mesmo para aqueles que não querem viver a experiência religiosa, existe uma imensa literatura, resultado de 2000 anos de existência, à disposição de estudiosos e curiosos.
Já agora, que tal incluir o ensino do fenómeno religioso nos programas escolares?
(O teu comentário não lembra nem ao diabo...)

vague disse...

Há um exemplo q me vem sempre à memória qdo se fala em religião e em ateísmo, etc.

Siza Vieira, q é um ateu convicto desenhou uma das mais interessantes igrejas q conheço. Não tem fausto mas tem Deus a entrar por aquelas janelas rasgadas no enclasuramento da fé.

Dizia ele q Deus estava no mundo e não fechado dentro duma igreja. Como me identifico com ateus assim! :))

Isto vem a propósito dos rituais e dos locais de culto. Reconheço-lhes a necessidade social e individual e de vez em qdo a minha vivência interior precisa dessas sentir colectivo ou do sentir espacial da igreja. Mas o q digo é q a minha experiência e vivência são mais q todo o cerimonial.

Concordo com aquilo q está a pensar: isto de se dizer q se é católico sem se ser praticante é táo moderno q já está ultrpassado :))

João Vasco disse...

Caro anónimo,

Julgo que o meu comentário é bem adequado. Diga-me onde pensa estar a origem do afastamento das pessoas em relação à religião, a católica, por exemplo, que é o caso que melhor conheço. Como pode a igreja ser tão impopular depois de 2000 mil anos de existência, mil dos quais com domínio quase completo sobre o pensamento religioso ocidental? Será que a igreja não tem responsabilidade nenhuma? Se tem, qual é?

João Vasco disse...

As posições tomadas por Vague são das mais correctas que já vi aqui serem expostas. Apesar de não ser católico, faço minhas as suas palavras, já que elas ultrapassam o logos particular do crente e sua crença para atingir o Logos comum à atitude religiosa perene.

Assim acredito na experiência religiosa pura, que não degenera em separatividade artificial, apesar de poder abarcar a adesão a um Rito vinculado num tempo e cultura definidos.

Muito bom!

João Vasco. disse...

Quanto ao fenómeno religioso nas escolas, concordo perfeitamente. Julgo que é uma matéria, digamos, necessária para contrabalançar o pragmatismo vigente. Mas nunca para servir de alavanca de uma determinada religião, seja qual for - o meu foco na religião católica deve-se ao meu enquadramento cultural. Em tese penso o mesmo de todas as religiões que se julgam definitivas.

E se não se conseguir tratar a experiência religiosa fora dos esquemas doutrinários de uma religião particular então é melhor deixar de parte e apostar mais fundo na exploração de temáticas filosóficas. A não ser que a escola seja propriedade da igreja. Aí já pertence à sua liberdade institucional a prática da endoutrinação e proselitismo.

vague disse...

João, a religião católica não está assim tão mal vista, nem é uma religião residual.

Sabe, eu acho q se há coisas a apontar às religiões não tem tanto a ver com elas mesmas nem se pretende contestar a sua necessidade social que o anónimo referiu e com a qual eu concordo, mas tem a ver com a manipulação q delas fazem os homens. Ok, dir-me-à q uma religião qq q seja tem de ter sempre um suporte humano; é certo. Mas onde eu quero chegar é ao cerne da questão q não é a 'bondade' (ser 'boa' ou náo) da religião em si mas o uso e manipulaçáo q dela fazem os homens bem como as condições históricas.
Por ex: a Inquisição foi uma das manchas da Igreja Católica. Eu entendo q não podemos separar a Inquisição do seu contexto histórico e visto por aí, vemos as coisas filtradas: é q a Idade Média foi uma época de extrema violência.

Gosto de ver para além do q os olhos vèem, e gosto da isenção possível :)
sendo uma pessoa de fé q assume isso naturalmente, já assisti a ritos de outras religióes e vi não estamos assim tão distantes. se exceptuarmos os fundamentalismos q cada religião tem, o fundo é o mesmo e de preferência 'bom'. Não há nada como um bom fundo, não acha? :))

vague disse...

exceptuo claro as religiões de base islâmica mais radical q para mim, por ignorância minha, eu sei, estão todas no mesmo saco.

João Vasco disse...

Precisamente, cara Vague, essa capacidade de encontrar no seu logos o logos comum é fundamental para que as religiões particulares concorram em conjunto, sem perder a sua identidade, para o enobrecimento da alma humana. É evidente que é o factor humano que causa a degenerescência das religiões, já que, se virmos bem, nenhum dos que são tidos como fundadores, como o Cristo para os cristãos, fundou na realidade qualquer religião como a entendemos hoje em dia. Eles, Cristo, Buddha, Krsna, trouxeram o Verbo, foram o verbo encarnado, agitaram as instituições do seu tempo, ao mesmo tempo que reordenaram as prioridades humanas.

Coube aos discípulos fundar todo o tipo de instituições que supostamente, cada uma mais que a outra, seriam a legítima Arca do Verbo. Daí que as falhas sejam naturais, certo, errar é humano, mas ainda assim se nos não esforçarmos para corrigí-las elas deixam de ser falhas naturais para se tornarem falhas estruturais.

Cabe portanto este reconhecimento e a busca incessante do verbo original que se descuidado acaba escondido debaixo das pedras das igrejas erigidas para O guardar e entre as linhas dos textos escritos para O revelarem.

Quanto ao Islão permita-me a ousadia de sugerir que pesquise a tradição Sufi. Verá que muda de ideias.

Bem Haja.

carlosi disse...

Concordo ( apesar de ser de uma religião diferente da minha) plenamente com as palavras de Esther M.
Em minha opinião o grande culpado da secularização e laicização crescente da sociedade está nos mass-media, que são ( e isto começa logo a montante nas esclas de formação de jornalismo, dominadas por professores de esquerda e extrema-esquerda) - e de forma militante - laicos e semi-jacobinos.

Nada disto seria assim se a sociedade não fosse tão mediatíca e não prestasse tanta atenção (imerecida) aos Media ( refiro-me quer a estes Media, mas também aos Media como conceito).

È claro que as coisas ainda irão piorar durante mais uns tempos; depois, como as lições e os ciclos da mestra-Magister História ensinam, virá a "factura" com juros , a "catanada" à séria e o respectivo ajuste de contas, e o equilíbrio repor-se-à de novo.